1 / Oscar Niemeyer, 1907-2012

O texto que escrevi há dois anos diz mais do que posso dizer agora:
"Niemeyer e a modernidade sem crise
Nenhum arquiteto
viveu tanto. Mas quem diria que um arquiteto moderno, aos 102 anos, ainda fosse
provocar polêmica com dois projetos inaugurados quase simultaneamente: o
Auditório de Ravello, na Itália, e a Cidade Administrativa Tancredo Neves, em
Belo Horizonte. O primeiro enfrentou oito ações judiciais ao introduzir um descomunal
olho de concreto numa cidade de pouco mais de 2 mil habitantes, onde “a última
grande construção datava do século XI”, como frisou o sociólogo Domenico di
Masi, maior entusiasta da obra. O segundo tem sido interpelado em função do
custo da obra, das motivações políticas da encomenda e até da sua eficiência
energética. Mas para além disso, pouco tem sido dito a respeito da sua
arquitetura.
A Cidade
Administrativa Presidente Tancredo Neves localiza-se à beira da Linha Verde, na
região norte de Belo Horizonte. A construção do complexo de 265 mil m2 de área
construída visou unificar a administração do Estado de Minas e ao mesmo tempo
induzir a expansão da cidade em direção ao norte. Mas o empreendimento tem
também fortes motivações políticas, é claro. É uma obra indissociável da
política carismática de Aécio Neves e de sua ambição política. Não deve
surpreender a ninguém, então, que o neto de Tancredo Neves tenha buscado o
arquiteto que definiu simultaneamente a imagem de modernidade de Belo Horizonte
e de Juscelino Kubitschek com o conjunto da Pampulha e outras obras que marcam
a paisagem urbana da capital mineira. E ainda tenha feito questão de inaugurar
a obra no mesmo dia em que o ex-presidente Tancredo Neves completaria100 anos.
O conjunto é
composto de cinco edificações autônomas e pouco articuladas, do ponto de vista
urbanístico, entre si e com o entorno. O que tampouco chega a ser motivo de
surpresa, em se tratando de Niemeyer: à semelhança do Memorial da América
Latina, por exemplo, o projeto aposta na criação de um foco de atenção, antes
que numa conexão mais estreita com o contexto em que se situa. No caso, o
edifício de maior apelo imagético abriga o gabinete do Governador e os demais
destinam-se às secretarias, auditório e centro de convivência. O Palácio do
Governo revela clara filiação a projetos anteriores de Niemeyer, em particular
das sedes italianas da Mondadori e do grupo Fata, os quais por sua vez seguem,
com alterações e ajustes, a solução da caixa de vidro envolvida por uma
seqüência de arcos, iniciada com o Palácio do Itamaraty. Já as secretarias se
acomodam em dois edifícios em curva, com 15 pavimentos cada. De certo modo encontra-se
aí, portanto, uma espécie de resumo da obra do arquiteto. Dois de seus traços
fundamentais, pelo menos, estão presentes: a forma livre e o virtuosismo estrutural.
A liberdade concedida à forma se manifesta nas curvas dos dois edifícios
administrativos que se rebatem um sobre o outro. Já a exploração extremada da
técnica moderna se mostra mais claramente no Palácio do Governo, que, com seus 146
metros de vão livre (mais ou menos o dobro do vão do Museu de Arte de São
Paulo), é alardeado como o maior vão suspenso do mundo. Contando, como sempre,
com a solidariedade de um grande engenheiro (José Carlos Sussekind), Niemeyer
conseguiu realizar uma estrutura que só pode ser medida pela sua ousadia: 30
cabos de aço mantém em suspenso uma caixa de vidro de 4 pavimentos, que pende
das vigas superiores.
A solução não é
uma novidade em si – embora distinta, a estrutura do Museu de Arte Moderna do
Rio de Janeiro, por exemplo, também foi resolvida, na década de 1950, com uma
sofisticada solução atirantada que liberou de apoios o solo e os espaços
expositivos. Mas nem por isso a última realização de Niemeyer deixa de
impressionar por seu vigor. Há, afinal, uma carga de juventude nesse projeto
que decerto contribui para a visibilidade da obra, embora também denuncie um
dos problemas cruciais para a produção projetual contemporânea no Brasil: de um
modo geral, a arquitetura brasileira não viveu a crise do moderno. Na década de
1950, enquanto o pensamento arquitetônico e urbanístico mundial era forçado a
confrontar-se com a crise da modernidade, o Brasil construía Brasília. E no
momento seguinte, quando a arquitetura começou a ser interrogada à luz da
crítica pós-modernista, o Brasil vivia uma ditadura militar que bloqueava
qualquer pensamento crítico. Esse quadro começaria a mudar junto com a abertura
política, mas então o pós-modernismo acabaria se tornando aqui uma espécie de chave
mestra capaz de oferecer saída fácil para um grande impasse: de um lado, a
reverência à obra ímpar de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, de outro, a
constestação própria de uma geração de arquitetos formados no período mais
negro da ditadura militar (num processo protagonizado justamente por alguns
arquitetos mineiros).
Pode-se então culpar
Niemeyer por certo imobilismo da arquitetura no Brasil? Definitivamente, não. Tudo
indica que se a arquitetura brasileira permaneceu
alheia à crise do moderno, foi porque ficou entre uma prática capitalista
predatória e uma reflexão teórica pobre e coercitiva na qual se expressou,
desta vez pela via da esquerda, uma tônica populista e autoritária
continuamente reeditada no Brasil.
Será um erro
contratar Niemeyer hoje? Longe disso. Nenhum arquiteto brasileiro tem
visibilidade sequer comparável a sua (basta lembrar a inauguração recente do
hospital Sarah Kubitschek, no Rio, largamente anunciada pela imprensa local sem
qualquer menção à arquitetura e/ou ao responsável pela excelência do projeto,
arquiteto João Filgueiras Lelé Lima).
E compreende-se facilmente porque dez entre dez dos maiores arquitetos do mundo
todo, quando vêm ao Rio, não só querem conhecer Niemeyer pessoalmente como
mostram uma excitação quase infantil ao sair de seu escritório com um
autógrafo, uma foto e se possível um croquis
(cena que se repetiu, só nos últimos anos, com Zaha Hadid, Frank Gehry, Steven
Holl, Christian de Portzamparc, Frei Otto e muitos outros).
No fundo, então,
o que impressiona mesmo é a escassez, se não ausência, de cultura arquitetônica
no Brasil hoje. E isso, não obstante as qualidades intrínsecas a certa produção
contemporânea, dentro da qual podem ser incluídos tanto Lelé quanto Angelo
Bucci. Pelo jeito, não bastou a exemplaridade da arquitetura produzida no país
nas décadas de 40 e 50, a qual se irradiou a partir do Rio de Janeiro mas não
tardou a brotar em Minas Gerais (e não só em Belo Horizonte mas também em
Cataguases, Diamantina, Ouro Preto). Tampouco foi suficiente a admirável longevidade
dos grandes mestres da arquitetura moderna no Brasil (Lucio Costa, por exemplo,
morreu perfeitamente lúcido aos 96 anos).
Longevidade essa
que, se confirma a singularidade da arquitetura brasileira, também expõe sua
face mais problemática. Diferentemente da França, por
exemplo, onde a arquitetura foi forçada a buscar uma nova orientação após o
luto pela morte de Le Corbusier, no Brasil a presença atuante dos grandes
arquitetos modernos em pleno final do século XX acabou se tornando, para
muitos, uma ameaça a qualquer tentativa de emancipação. E ao contrário do que
pode sugerir a quantidade de publicações e eventos suscitados pela comemoração
recente do centenário de Niemeyer, ainda há uma grande dificuldade de abordar
criticamente a sua obra.
Chegamos a um
ponto, no entanto, em que é difícil não se perguntar em que medida alguns
projetos que tem sido divulgados como sendo de Niemeyer, são de fato seus. No
caso do complexo mineiro, o projeto já foi acusado de ter saído das suas
gavetas. Não que, por princípio, isso seja condenável em arquitetura (considere-se,
por exemplo, as semelhanças entre o Edifício Bacardi e a Galeria Nacional de
Berlim, de Mies van der Rohe). Mas é difícil acreditar que, aos 102 anos, Oscar
Niemeyer ainda esteja em condições de confiar a gênese da forma ao gestual pelo
qual a sua arquitetura se definiu, em seus melhores momentos. Não raro, os
traços que temos visto mostram características substancialmente distintas de
seu procedimento projetual. E ainda que as maquetes possam ajudar, é difícil
acreditar que a esta altura ele esteja disposto a rever sua concepção de
arquitetura como atividade de criação individual, definida por meio de um risco
fluente e decidido. O que em todo caso faz pensar na simplicidade da gramática
niemeyeriana e sua exploração – no limite da saturação, nos últimos tempos -
como uma marca facilmente identificável e comercializável.
Todo cuidado é
pouco, portanto, para tratar da Cidade Administrativa de Belo Horizonte. O
projeto é a prova mais cabal de que Niemeyer não é só o último grande Mestre da
arquitetura. Nem só o grande Imortal da arquitetura brasileira. Niemeyer é a
juventude espantosa, e às vezes assustadora, do Brasil."
Ana
Luiza Nobre
Publicado
no caderno “Prosa e Verso” do jornal “O Globo”, em 10.abril.2010