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Sexta-feira 13 / Chove forte no Rio. As águas de março me pegam na saída de uma entrevista com o ex-prefeito Luiz Paulo Conde, que me diz que o Rio está melhorando. Quando finalmente chego em casa, encharcada, me deparo com um texto de Lima Barreto, enviado por Goebel Weyne:
"As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas.
Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.
De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.
O Rio de Janeiro da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.
Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!
Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.
O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.
Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.
Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social."
As Enchentes, 1915

Um comentário:

  1. Otavio Leonídio15/3/09 13:01

    O texto de Lima Barreto faz pensar no débito dessa engenharia para com a cidade do Rio de Janeiro. É verdade: à proficiência dessa engenharia se devem túneis, aterros e viadutos (alguns destes belíssimos, como costumava lembrar Alcides Rocha Miranda). Mas e a exploração do sub-solo da cidade? Como foi possível abdicar de explorar esse sub-solo por tantas décadas? A pouca profundidade do lençol freático? A resposta não satisfaz (assim como não satisfaz a abrangência de nosso metrô). A proliferação do tipo arquitetônico diretamente vinculado a essa opção (embasamento destinado a estacionamento de automóveis, com sobreposição de torre afastada das divisas - um tipo, a meu juízo, espúrio, e não apenas em termos compositivos, mas sobretudo urbanos) é um dos eventos mais lamentáveis de nossa história urbana. Estacionamento com vista para o mar? Já chega, não?
    Otavio Leonídio, Rio de Janeiro.

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