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O edifício do BNDES é uma das torres mais elegantes do Rio, em que a influência de Mies van der Rohe mais se faz notar. Foi projetado nos anos 70 por uma equipe de arquitetos paranaenses que se distinguiu nacionalmente por sua expressiva participação em concursos públicos naquele momento (Alfred Willer, Ariel Stelle, Joel Ramalho Jr., José Sanchotene, Leonardo Oba, Oscar Mueller e Rubens Sanchotene). Fundamentalmente, o partido arquitetônico consistiu em concentrar os escritórios num prisma quadrangular que se ergue, quase levitando, sobre um tronco de pirâmide coberto por jardim de Burle Marx. Desse modo, o edifício garante presença na paisagem urbana do entorno do Largo da Carioca - com o qual se comunica paisagisticamente - mas também destaca-se, respeitosamente, do Convento de Santo Antonio, seu vizinho. Pois agora alguém teve a idéia de dispor da fachada da torre como suporte para uma propaganda do próprio banco. Guardadas as proporções, é como se a torre do Seagram Building, na Park Avenue, amanhecesse tomada por uma propaganda de whisky.



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Cruzei a Rio Branco, apinhada de gente, e dei com este grito gravado no asfalto. Senti toda a solidão urbana comprimida naquele instante e estremeci levemente, antes que o próximo táxi me atropelasse.

Posto 7 / jul 09

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Arte Urgente / A exposição "Volpi: dimensões da cor", fica até domingo no Instituto Moreira Salles. É uma ocasião única para ver um seleto conjunto dos trabalhos de Volpi, que depois do dia 5 não voltará a ser visto sequer no catálogo que acompanha a exposição. Isso porque ambos - exposição e catálogo - foram feitos sem a autorização dos herdeiros de Volpi, que têm cobrado valores exorbitantes para a exibição pública de qualquer imagem do artista, e agora ameaçam processar o IMS.
No caso de Volpi, os herdeiros não cobraram apenas pela exibição de obras que sequer lhe pertencem (os proprietários são colecionadores que as cederam para uma exposição aberta gratuitamente ao público). Num delírio de poder e arrogância, chegaram a exigir que os textos do catálogo lhe fossem entregues antes, para sua aprovação.
Não é um caso isolado, infelizmente. No Brasil, vários herdeiros de artistas têm tido comportamento semelhante. Pouco importa se com isso inviabilizam a divulgação da própria obra pela qual dizem zelar. E, no limite, mesmo a reflexão sobre a arte no Brasil.
Nas últimas semanas, vários artigos e matérias saíram na imprensa do Rio e de São Paulo ("Família de Volpi cobra R$ 100 mil por imagens do artista e impede catálogo", em O Globo de 13 de junho de 2009; "A danação da herança", de Ferreira Gullar, na Folha de S. Paulo de 21.jun; e "Marca de Família", também na Folha, de 30.jun). Hoje, críticos e historiadores da arte e da arquitetura lançam um "manifesto em defesa da exibição pública das obras de arte brasileiras", que também assinei e reproduzo aqui, na íntegra. Adesões e divulgação são urgentes.

"Manifesto em Defesa da Exibição Pública das Obras de Arte Brasileiras

A Lei dos Direitos Autorais brasileira transfere aos herdeiros legais, por 70 anos após a morte do artista, os direitos de autor e de imagem de obras de arte. Na prática, isso significa que os herdeiros legais têm o direito de autorizar ou não a exibição pública dessas obras (mesmo quando estas pertencem a terceiros), e também o de cobrar por isso. Lei e prática não são exóticas: regimes legais análogos vigoram em diversas partes do mundo.

No Brasil, entretanto, a vigência da lei tem dado lugar a situações inusitadas, com herdeiros legais solicitando de instituições culturais pagamento de quantias que, na prática, inviabilizam a exibição pública de obras de arte – seja em exposições, seja em catálogos e livros. Há, de resto, caso recente de representante legal de herdeiro que, em meio à negociação de condições de autorização de publicação de obras, solicitou da instituição promotora o envio prévio dos textos críticos que acompanhariam a reprodução das obras. De toda evidência, o objetivo era exercer controle sobre informações e interpretações de obra e artista, o que é inaceitável.

Não obstante seu valor “cultural”, obras de arte não estão alijadas do mundo das transações e dos interesses comerciais, muito ao contrário. É legítima portanto a interpretação de que, conforme prevê a Lei brasileira, os detentores dos direitos autorais e de imagem de obras de arte sejam remunerados quando de sua utilização em eventos e publicações cujos fins são manifestamente comerciais. Bem entendido, nem sempre a distinção entre “fins culturais” e “fins comerciais” é clara, tanto mais quando se lida com eventos e projetos pertencentes à chamada “indústria cultural”. Parece portanto igualmente legítimo que os detentores dos direitos autorais e de imagem de obras de arte sejam adequadamente remunerados (a partir de bases de cálculo razoáveis e transparentes, compatíveis com a realidade financeira do evento, e que tomem como referência valores consagrados internacionalmente) quando de sua exibição em exposições com ingressos pagos e de sua reprodução em catálogos comercializados. Inversamente, no caso de uso para fins estritamente acadêmicos, não deve jamais caber cobrança.

Há algo, no entanto, que deve preceder e obrigatoriamente pautar a discussão sobre a distinção entre “fins culturais” e “fins comerciais”, e, por conseguinte, também a disputa sobre as condições de remuneração dos detentores dos direitos autorais e de imagem de obras de arte: o dever precípuo e inalienável dos herdeiros de promover a exibição pública e a ampla circulação das obras que lhes foram legadas. No caso de acervo de bens de comprovado valor cultural, o interesse patrimonial (privado) deve conviver, não se antepor ao interesse cultural (público).

A idéia de que o legítimo direito de remuneração pode preceder o dever da exibição e divulgação pública da obra de arte é inadmissível. O empenho por parte de alguns herdeiros, motivado por demanda comercial desmedida ou impertinente, em obstruir a exibição pública de obra de arte de artista desaparecido não é apenas absurdo, é imoral."

1º de Julho de 2009.

Abílio Guerra, Agnaldo Farias, Ana Luiza Nobre, Carlos Zílio, Cecília Cotrim, Fernando Cocchiarale, Ferreira Gullar, Glória Ferreira, Guilherme Wisnik, João Masao Kamita, Ligia Canongia, Luiz Camillo Osorio, Otavio Leonídio, Paulo Sergio Duarte, Paulo Venancio, Renato Anelli, Roberto Conduru, Rodrigo Naves, Ronaldo Brito, Sophia Telles, Suely Rolnik, Tadeu Chiarelli.














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Aluísio Carvão / Muros são elementos urbanos fundamentais. No Rio, tenho meus preferidos: o muro do Jockey Clube, no Jardim Botânico, é um deles. Passo freqüentemente de carro ou ônibus por ali, e muitas vezes o forte colorido dos seus grafites me faz esquecer as imponentes palmeiras reais, do outro lado da rua. Outro muro que pertence ao meu cotidiano fica na rua Mário Ribeiro (Lagoa-Barra), no limite do terreno do 23º Batalhão da Polícia Militar. É um painel de azulejos concebido especialmente para o local por Aluísio Carvão, a convite da Prefeitura, nos anos 90. O painel tem cerca de 100 metros de comprimento e, curiosamente, nenhuma pichação, embora esteja ali há mais de 10 anos. Nesse tempo, não me lembro de ter flagrado ali nenhuma pichação, cartaz ou publicidade. Só o que o tem ameaçado é o descaso do poder público: faltam vários azulejos, outros foram trocados por remendos grosseiros... Agora me dizem que ele está em vias de ser retirado dali, em função de um projeto que está sendo gestado por Jaime Lerner para abrigar o Museu da Bossa-Nova no terreno. Não chego a defender o seu tombamento, como sugerem alguns. Mas me solidarizo com o movimento em defesa da sua manutenção, encabeçado por Mario Fraga e apoiado por vários artistas plásticos (Eduardo Coimbra, Umberto Costa Barros e outros). Também acrescento a sugestão aos responsáveis pelo projeto do Museu que considerem o muro como algo a ser incorporado ao projeto – o belo projeto de Renzo Piano para a Fundação Beyeler, na Suiça, pode servir como referência.
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O fim da arquitetura carioca / Não se falou noutra coisa a semana toda. A foto do trio formado pelo prefeito, governador e presidente – todos sorridentes e portando quepes de almirante - resumiu a confiança que cerca o projeto “Porto Maravilha”, lançado oficialmente pela prefeitura na última terça-feira. Pela proposta, a área portuária do Rio de Janeiro vai passar por uma reforma completa nos próximos cinco ou seis anos, que inclui amplas intervenções urbanísticas e a construção de vários equipamentos comerciais e culturais, além de moradias. O lote de obras compreende a demolição de parte da av. Perimetral (entre o Mosteiro de São Bento e a Rodoviária) e sua substituição por uma via interna (paralela à av. Rodrigues Alves), a "urbanização" da Praça Mauá e do Pier Mauá e a construção de três novos piers. Deverão também ser construídas cerca de 500 unidades habitacionais (com a recuperação de imóveis antigos na região portuária, através do programa Novas Alternativas), uma garagem subterrânea (sob a Praça Mauá, com capacidade para até mil veículos) e equipamentos de cultura e entretenimento (a pinacoteca do Estado no palacete D. João VI, na Praça Mauá, e o Museu do Amanhã, nos armazéns 5 e 6 do cais). Na esteira do projeto, surgiu até um complexo de salas de escritórios e hotel a la Dubai, a ser construído na av. Rodrigues Alves, em frente aos armazéns 4 e 5. Tudo isso, claro, depende de mudanças na legislação, que terão que ser aprovadas agora pela Câmara dos Vereadores, já que a área atualmente é definida como industrial.

Em meio ao farto material de divulgação, não foi anunciado nenhum concurso público de projetos. Tampouco apareceu qualquer nome de arquiteto ou urbanista. Todas as imagens divulgadas têm mostrado projetos pífios, sem nenhuma qualidade arquitetônica ou urbanística – a começar pelo Pier Mauá, que pelo jeito vai se transformar numa pracinha de interior, com direito a quiosques, chafarizes e até um "arco triunfal". A degradação da área portuária carioca é um fato. Mas isso não pode justificar a realização de projetos sem nenhuma qualidade arquitetônica ou urbanística, feitos sabe-se lá por quem ou como. Somado aos projetos para as Olimpíadas, a Copa do Mundo e às novas instalações da Petrobrás na Cidade Universitária, os projetos para a zona portuária vão definir uma transformação profunda do Rio de Janeiro nos próximos anos. Isso poderia ser decisivo para retirar a arquitetura carioca do buraco em que está, dando estímulo inclusive a produção mais jovem. Mas se tudo seguir como está – com projetos surgindo a toque de caixa, sem nenhum concurso público à vista, e os arquitetos em total silêncio - será mesmo o fim da arquitetura carioca.


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A quem pertence a Praça? / A Praça XV é o coração urbano do Rio. Mas skate, ali, não pode. A alegação da Guarda Municipal é a de que a prática do skate provoca danos ao patrimônio histórico da Praça. Será ao piso, instalado nos anos 90? À fachada do Paço Imperial, cuja simetria fica prejudicada pela movimentação dos skatistas? Ou à estrutura da Perimetral, que a prefeitura mesma quer demolir? O que pode ser mais estimulante para a cidade do que a presença dessa juventude na Praça, justamente nos horários em que ela permanece cinzenta e deserta? Os skatistas não defendem só a prática do skate na Praça. Eles defendem a Praça.



















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Skate na Praça / O skate está intimamente associado aos espaços urbanos. Rampas, escadas, bancos, marquises, tudo é desafio para quem vive atrás da adrenalina de manobras (e tombos) espetaculares no asfalto. No Rio, os skatistas habitam o Centro desabitado. É um instante de felicidade vê-los cruzando o pilotis do Ministério da Educação ou voando sobre a Praça XV, onde eles costumam se concentrar nos finais de semana. E é aí que eles vão estar, domingo, na versão carioca do GoSkateboardinDay, manifestação criada na Califórnia em 2003 e que ocorre simultaneamente em várias cidades do mundo, sempre no dia 21 de junho, como uma celebração da liberdade associada à prática do skate.

Mas para os skatistas cariocas, a data será mais que isso: eles pleiteam "a chance de um diálogo com a prefeitura" para expor sua proposta de "construção de um múltiplo e versátil ambiente de rua", definido não como um 'skateparque' - projetado para uso exclusivo dos skatistas - mas como "um parque onde possa ser praticado o skate". O que eles querem, simplesmente, é estar na cidade. Vivê-la, a seu modo, superando a sua própria marginalização.

É uma reivindicação a ser ouvida, por parte de uma comunidade que já tem presença na revitalização do Centro.
(ver o vídeo "Em cartaz", na coluna à esquerda, e o manifesto XV: http://www.fotolog.com.br/avuatauba).
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E se em vez de helicópteros fossem zeppelins? Este sobrevoou a cidade na década de 30.


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Helicópteros / Duvido que alguma cidade tenha mais helicópteros que o Rio. Pelo que sei, São Paulo tem hoje cerca de 600 em operação, mais ou menos o dobro de Nova York. Mas aqui, tenho certeza, eles são centenas de milhares. A todo instante eles passam zumbindo, para um lado e para o outro, acima da minha cabeça: são passeios turísticos, salvamentos de banhistas na praia, combates a incêndios florestais, transportes de executivos, operações policiais e até resgates de corpos tombados durante confrontos com traficantes em favelas - cena brutal e agora cotidiana no Rio. A verdade é que o despudor dos helicópteros cariocas não assombra mais ninguém. Talvez às crianças menores, que mal ouvem um ruído mais forte e já olham aterrorizadas para o céu. Não, na minha infância, helicóptero era sinônimo de Papai Noel. Ou podia ser também que levasse o Rei, cantarolando, num vôo fabuloso sobre a cidade, capaz até de atravessar um túnel.


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Segurança pública / Pensava vagamente no avião desaparecido – “a máquina contra o homem”, diz a manchete do Jornal do Brasil – quando me deparei com a mala – preta, inerte e sem identificação, esquecida sobre a calçada. Algo nela me fascinou: havia qualquer coisa escapando do seu interior, o que tornava seu abandono ainda mais comovente. Se estivéssemos, ela e eu, em Londres ou Paris, certamente ela me ameaçaria. Aqui, não. Apenas segui em frente, como todos os outros. No dia seguinte ela continuava lá, e eu tive a sensação passageira de viver numa cidade segura.

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Surpreendente dádiva
Lucio Costa

“Como resultado de uma feliz conjugação de circunstâncias, "sans en avoir l'air" - como diria Marques dos Santos, antigo diretor do Museu Imperial de Petrópolis - a administração do Estado do Rio de Janeiro vai presentear a cidade com novas perspectivas urbanas que darão o devido destaque a mais quatro preciosos testemunhos do nosso passado colonial.

1º - A necessidade de nova articulação viária por causa do próximo bloqueio da rua Uruguaiana pelas obras do Metrô acelerou a demolição dos prédios remanescentes na área da Lapa, liberando assim, de ponta a ponta, o aqueduto da Carioca, os Arcos, como são conhecidos – monumento cujo patrono no IPHAN é José de Sousa Reis - o que levou à limitação do gabarito na encosta do morro a fim de incorporar para sempre ao logradouro a serena presença do convento de Santa Tereza.

2º - A feliz deliberação de deixar livre o triângulo contido entre a rua S. José e o edifício De Paoli, criou, com a praça também triangular fronteira ao BEG, novo eixo visual urbano, perpendicular à Avenida Rio Branco, que terá como remate contra o sol poente a extensa e rica silhueta do convento franciscano e respectiva ordem terceira. Esse conjunto será também valorizado pelo desafogo do Largo da Carioca, resultante igualmente das obras do Metrô, e pela iniciativa complementar de liberar a vista lateral, sobre a rua do mesmo nome, com os belos janelões da sacristia.

3º - O prolongamento do Elevado da Perimetral dará ensejo a que se descortinem as fachadas leste e norte do imponente mosteiro de São Bento com o seu famoso botaréu.

4 º - Finalmente, a necessidade da construção de uma passarela na Praça XV levou a administração a restituir aos pedestres o antigo Terreiro do Paço, procurando-se bloquear a vista, tanto do viaduto como do monumento ao General Osório, com um reforço adequado da arborização.

Esse aflorar de perspectivas coloniais que pareciam definitivamente sepultadas pelo indiscriminado adensamento urbano da massa edificada vai ser uma agradável surpresa para
todos os cariocas, pois com esta não contavam. "Il ne faut jamais désespérer".

Lucio Costa, 25/8/74

[Este texto foi entregue por Lucio Costa ao eng. Emilio Ibrahim, então secretário de Obras do Estado, em reunião do Conselho Superior de Planejamento Urbano do Estado da Guanabara - integrado, entre outros, também pelos arquitetos Paulo Santos e Jorge Machado Moreira. O original pertence ao arquivo pessoal do eng. Ibrahim, a quem agradeço. http://emilioibrahim.eng.br/]

Posto 6 / jun 09






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Querem acabar com ela / Junto com a reinvenção dos projetos de revitalização da zona portuária, volta à baila a proposta de demolir a Perimetral (Avenida Presidente Kubitschek), no centro da cidade. O viaduto de cerca de 6 km de extensão, cuja construção foi iniciada heroicamente, em paralelo à construção de Brasília, passou a ser visto, nos últimos anos, como um dos maiores responsáveis pela degradação da frente marítima carioca e já foi objeto de várias propostas de intervenção. Há fortes razões para considerá-lo um fardo a ser eliminado, uma vez que sua construção apartou ainda mais a cidade da água e vitimou parte expressiva da memória carioca, como o Mercado Municipal (do qual hoje só resta o torreão solitário e meio decadente do Albamar). Mas por outro lado, a Perimetral comporta atualmente um fluxo diário de veículos cujo escoamento, na sua ausência, exigirá obras colossais, extremamente penosas e custosas para a cidade.

A Perimetral segue o modelo dos corredores viários elevados construídos no pós-guerra em grandes centros urbanos do mundo todo, visando a criação de alternativas para o crescente tráfego motorizado e particular. Dentro desse modelo, os exemplares mais emblemáticos são, provavelmente, as “expressways” erguidas por Robert Moses em Nova York, que devastaram comunidades inteiras da cidade, nos anos 50, e só foram freadas graças à mobilização comunitária encabeçada por Jane Jacobs na década seguinte.

No caso em questão, no entanto, é preciso levar em conta que, depois da criação do “mergulhão” da Praça XV, na década de 90, uma vida floresceu bem ali, ao abrigo do viaduto, da qual dá testemunho a fervilhante feira de artigos usados onde aos sábados ainda se pode comprar um disco de vinil a dois Reais, um ex-celular a três ou uma máquina de escrever a trinta. E não deixa de ser curioso que as precárias barracas se concentrem exatamente ao longo dos apoios do viaduto, e não, como gostariam muitos bem-intencionados arquitetos, na praça adjacente, que aos sábados resta deserta. Fica evidente que existe uma forte identificação entre o caráter meio marginal da feira e o espaço meio abandonado sob o viaduto, ambos tão próximos de espaços urbanos centrais e ao mesmo tempo tão apartados da cidade à sua volta.

Além do mais, é inegável que, se a Perimetral bloqueou a vista de alguns monumentos notáveis – vários deles tombados, como o chafariz do Mestre Valentim e o Paço Imperial -, ela também acabou presenteando o Rio com novas perspectivas urbanas. E essa "surpreendente dádiva", salvo engano, quem primeiro percebeu foi Lucio Costa.


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Vista para o Pão de Açúcar / Estou cada vez mais convencida de que muitos problemas relativos à baixa qualidade da arquitetura carioca hoje têm relação direta com a legislação urbana da cidade, que além de ser extremamente impositiva, restritiva, e por isso mesmo estúpida, permanece praticamente intocada há décadas. Além das varandas abertas, que tomaram como uma praga a habitação multifamiliar carioca nos últimos três decênios, muitos bairros foram adensados com base na tipologia da torre sobre embasamento destinado a garagem. Tipologia essa que, ignorando as observações feitas por Jane Jacobs ainda na década de 1960, simplesmente decretou o afastamento dos olhos em relação à rua e assim acabou contribuindo decisivamente para o aumento da violência e da insegurança urbana.

Surgiram mesmo situações quase cômicas, como a do edifício ao lado. A uniformidade da fachada, garantida pela repetição das janelas em fita, sugere que todos os pavimentos acima do térreo sejam iguais, com a sala voltada para a frente. Quando olhamos através do vidro do primeiro pavimento, porém, o que encontramos são carros estacionados. É verdade que no Brasil o carro tornou-se um símbolo de status tão inquestionável que a incorporação ao projeto de um abrigo capaz de proteger-lhe das intempéries e do vandalismo costuma ser facilmente justificável. Mas como justificar o fato de que este abrigo, além de ocupar o espaço supostamente mais nobre do edifício – do ponto de vista da sua relação com o espaço público -, receba o mesmo tratamento, o mesmo material, e até as mesmas esquadrias dos apartamentos? No caso, há ainda um detalhe: o estacionamento volta-se para o Parque do Flamengo, um dos parques urbanos mais extraordinários do mundo, projetado por Affonso Eduardo Reidy e Roberto Burle Marx. E tem bem à sua frente, pouco além do Parque e da Baía, nada senão o Pão de Açúcar.
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Conheci ontem, finalmente, a Galeria Progetti. É uma delicada intervenção do arquiteto Pedro Rivera num dos estreitos sobrados da Travessa do Comércio, que encontrei suavemente banhado pela luz do outono, com trabalhos de Giancarlo Neri e Marcos Chaves.





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Mar Morto / Será que a positividade com que continuamos a encarar a arquitetura é realmente benéfica para a sua prática? A interrogação me levou a propor aos alunos hoje uma discussão - propositalmente desviante em relação ao nosso percurso até aqui - em torno da relação entre Richard Serra, Robert Smithson e o contexto nova-iorquino (conduzida pela Martha Telles, que acaba de concluir tese sobre o tema). À perplexidade mais ou menos generalizada diante do Hotel Palenque (palestra de Smtihson aos alunos de arquitetura da Universidade de Utah, em 1972) seguiu-se então uma animada discussão sobre a ausência de um ambiente de discussão em arquitetura hoje no Rio, que me obrigou a reconhecer o papel limitado da minha própria ação, dentro da escola, em face dos inúmeros problemas que assolam atualmente a prática carioca da arquitetura, como a falta de referências intelectuais e projetuais contemporâneas, o descolamento entre arte e arquitetura, a escassez de concursos públicos e a inexistência de um debate capaz de ganhar a esfera pública, que se traduz no assombroso silêncio profissional diante da falta de foco das operações cada vez mais midiáticas da prefeitura carioca.

A situação é quase terminal. E no entanto não encontro nenhum sinal de mal-estar capaz de abalar a auto-confiança que segue escorando a disciplina da arquitetura entre nós, por mais que ela se mostre cada dia mais isolada e desimportante. Preferimos seguir mecanicamente projetando e cultuando monumentos do que aceitar o desafio de Rem Koolhaas, para livrar-nos da eternidade historicamente associada à arquitetura e enfrentar os riscos que envolvem a sua prática hoje.






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Selva Urbana / Em que outra metrópole do séc. XXI uma cobra de 3 metros de comprimento pode ser encontrada serenamente atravessando a garagem de um edifício residencial? E em que outra metrópole do séc. XXI há bombeiros preparados e equipados para capturá-la – viva - em poucos minutos, sem causar pânico entre os moradores nem sacrificar o animal? A cena aconteceu domingo passado, num condomínio de 54 apartamentos logo atrás do shopping da Gávea (um dos mais centrais do Rio). Em seguida, a jibóia foi devolvida à floresta e os moradores voltaram para seus afazeres e aflições cotidianas, em seu mundo de cimento e asfalto onde todos os dias parecem iguais.



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Em cartaz / Nenhuma cidade está tão associada ao cinema quanto Nova York. Conheço cada esquina dessa cidade por meio dos filmes de Hitchcock, Woody Allen e Spike Lee. As cenas de rua nova-iorquinas se tornaram tão familiares que, na tela, me reconheço muito mais cruzando a Ponte do Brooklyn que a Ponte Rio-Niterói. É que as cidades americanas parecem saídas do cinema, do mesmo modo que as cidades italianas parecem saídas de uma pintura, como observa Baudrillard.
Foi pensando nisso que decidi criar um espaço, na coluna ao lado, destinado a destacar vídeos experimentais sobre o Rio. O filme de estréia (Extra-large n.1) é um dos trabalhos de alunos do Curso de Arquitetura da PUC que será apresentado e discutido no dia 25, às 19 horas, no IAB (Rua do Pinheiro, 10, Flamengo), dentro do programa "Cidade Digital".

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Disque-Choque / O Rio está vivendo um período, no mínimo, curioso. O chamado “Choque de Ordem”, praticado desde janeiro pela recém-criada Secretaria Especial de Ordem Pública, pode ser flagrado cotidianamente nas ruas: carros estão sendo rebocados, construções irregulares demolidas, vendedores ambulantes forçados a se cadastrar. Numa cidade entregue ao mais completo abandono nos últimos anos, é um sinal de mudança cujo componente simbólico convém a um prefeito jovem e ambicioso, como não poderia deixar de ser. Mas a espantosa ausência de um pensamento mais amplo sobre a cidade, e de uma política urbana que o acompanhe, me impedem de comemorar como eu bem gostaria.

Há poucos dias me deparei com mais uma dessas ações na zona sul da cidade. E pela primeira vez, dei-me conta de que a operação necessária para rebocar um único automóvel mobiliza outros tantos veículos, além do reboque propriamente dito, e várias pessoas (entre guardas de trânsito, fiscais, motoristas e operadores do guincho, contei algo em torno de 10 homens). Ora, numa metrópole como o Rio de Janeiro, cuja mobilidade já é tão sacrificada por sua situação geográfica, é de se perguntar se uma tal operação, conforme tem sido conduzida, não tem conseqüências mais negativas que positivas. Penso, por exemplo, no impacto – em termos de poluição do ar, consumo de combustível e congestionamento do sistema viário - causado pelo deslocamento do comboio da prefeitura até o local da ocorrência, o transtorno provocado pela obstrução de uma ou mais vias públicas até que a remoção do veículo infrator se consume (o que pode levar uma hora ou mais) etc. Somo a isso o deslocamento do comboio de volta até os depósitos públicos municipais – localizados em áreas centrais e com funcionamento limitado aos dias úteis, de 9 às 18 horas (ou seja, justamente no período em que há mais veículos circulando pelas ruas da cidade). Mais o deslocamento do próprio proprietário do veículo, que, mesmo esbravejando muito, não tem outra alternativa senão resgatá-lo pessoalmente. Feitas as contas, será que o reboque de um ou dois carros estacionados irregularmente justifica todo esse impacto? Quanto se consome, em termos financeiros e ambientais, a cada operação do gênero? Será que o número de carros rebocados por dia em todo o município (cerca de 20, segundo dados divulgados pela Secretaria de Ordem Pública relativos ao mês de fevereiro de 2009) é alto o suficiente, em termos percentuais, quando se considera o conjunto da frota motorizada do Rio de Janeiro? Não defendo o descumprimento do Código de Trânsito, e muito menos a ocupação irregular do espaço público. Mas o problema, me parece, está na situação crítica desta cidade, cujo desregramento exige muito mais que um “choque”.
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Maravilha de Cidade / É claro que a minha carta não foi publicada. E no dia seguinte, o maior jornal do Rio ainda soltou outra matéria sobre o Hospital, de novo sem mencionar o arquiteto. A quem importa? Talvez aos técnicos da Unesco, que percorrem a cidade-candidata ao título de "Patrimônio Cultural da Humanidade". Só que os "trunfos da candidatura", segundo o mesmo jornal, são o Maracanã, a Bossa-nova e claro, o Carnaval.

Posto 5 / mai 09

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A inauguração do Hospital Sarah-Rio está sendo amplamente noticiada pela imprensa carioca. Mas o nome de Lelé tem sido injustamente omitido. É mais um triste sinal do descaso pela arquitetura no Rio de Janeiro. Segue carta que enviei hoje ao "Globo":

"A inauguração do Hospital Sarah-Rio, destacada na primeira página do jornal "O Globo" de hoje, de fato integra o Rio a uma rede hospitalar reconhecida internacionalmente. Mas não apenas na área da Saúde. Também no campo da Arquitetura a Rede Sarah é hoje referência indiscutível, e isso graças à ação do arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé, autor dos projetos de todas as suas unidades e coordenador do Centro de Tecnologia da Rede Sarah (CTRS), localizado em Salvador. Lelé está entre os maiores arquitetos brasileiros de todos os tempos, e é uma ofensa à própria arquitetura brasileira que seu nome não seja sequer mencionado nas matérias publicadas na imprensa carioca."





























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Boa notícia: o Hospital Sarah-Rio, projetado por Lelé em Jacarepaguá, será inaugurado amanhã. As fotos foram feitas agora à tarde, e estão longe da grandeza da obra.







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OS.2 / Também na Câmara Municipal discute-se nestes dias a introdução do modelo de gestão de determinados serviços públicos – das áreas de educação, saúde, cultura e esporte - por meio das Organizações Sociais, nos moldes da Lei Federal n.9637, de 15.mai.98. O projeto, encaminhado à Câmara pelo prefeito Eduardo Paes em fevereiro, foi discutido em audiência pública realizada ontem. Diante da polêmica que vai se armando, vale lembrar que deve-se à primeira instituição pública não-estatal brasileira - a Associação das Pioneiras Sociais, criada em 1991 – a gestão impecável da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, que se tornou sinônimo da arquitetura exemplar de João Filgueiras Lima. O Rio, aliás, conta com duas unidades da Rede Sarah: o Centro de Reabilitação infantil, aberto em 2002, e o Hospital Sarah-Rio, em vias de ser inaugurado. Ambos situam-se junto à Lagoa de Jacarepaguá, e reafirmam (como se isso ainda fosse preciso) a qualidade verdadeiramente extraordinária – porque fora do comum, rara, admirável – da arquitetura de Lelé.
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OS / Desconfio, por princípio, de todos os movimentos do atual governo do Estado do Rio de Janeiro (haja vista os muros...). Mas também sou favorável a modelos de gestão que envolvam maior participação da sociedade civil, e por isso subscrevi o abaixo-assinado em favor do Projeto de Lei 1975/2009, apresentado à Assembléia Legislativa visando a criação das Organizações Sociais (OS) no Rio [ http://www.petitiononline.com/OSnoRJ/petition.html ]. As OS são instituições civis, sem fins lucrativos, que poderão administrar teatros, cinemas, museus, bibliotecas, escolas de arte e centros culturais da rede estadual. Há quem veja aí uma ameaça de privatização desses espaços, mas não posso deixar de considerar a penúria em que se encontram. Em vários outros Estados (São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Espírito Santo, Bahia, Pará, Ceará, Pernambuco, Sergipe, Acre e Maranhão, além do Distrito Federal), leis semelhantes têm viabilizado a gestão de instituições e projetos de qualidade como o IMPA/ Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Porto Digital do Recife, a Estação das Docas de Belém do Pará, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Sala São Paulo, a Pinactoeca do Estado e até hospitais da rede estadual paulista. É uma lista considerável.
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Cronograma do Plano Diretor / “Começou a rodada final do Plano Diretor da Cidade do Rio de Janeiro”, anuncia o site da vereadora Aspásia Camargo, presidente da Comissão Especial incumbida de emitir parecer sobre o assunto (ver postagens mais antigas). Ainda segundo o site, audiências públicas estão previstas para ocorrer entre junho e agosto, e o projeto deve ser votado em novembro deste ano. Bom, considerando que a Comissão foi instalada há quase dois meses, um cronograma já é alguma coisa. A partir de agora, vou ficar de olho nele. Mesmo porque, curiosamente, a notícia é de 17 último, véspera do mega-feriado de 9 dias que só acaba depois de amanhã no Rio.

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Favor não tocar / Hoje é feriado no Rio (de novo), e decidi conferir algumas exposições inauguradas recentemente no centro da cidade. A primeira parada foi no MAM, que abriga uma mostra comemorativa dos 50 anos da 1ª Exposição Neoconcreta, além de uma exposição de Carla Guagliardi. Já desisti de interagir com os bichos de Lygia Clark há muito tempo, mas ao me deparar com "O lugar que eu respiro" de Carla, um trabalho em tubos de cobre e balões de borracha que sugere o espaço de um cômodo habitável, tomei uma abertura no chão como um convite ao ingresso. Qual o quê. Imediatamente fui instada a me afastar, diante das palavras de reprovação da funcionária do museu.

Saí dali um tanto aborrecida – não foi nesse mesmo museu que nasceu o Neoconcretismo?? - e toquei para o Centro Cultural da Justiça Federal, na av Rio Branco, que é um dos espaços expositivos mais esdrúxulos do Rio, mas desde ontem hospeda a exposição “A Rua é nossa...”, ligada ao Ano da França no Brasil. Já conhecia o Institut pour la Ville en Movement, mas estava curiosa para experimentar o jogo “Pedestre”, de Daniela Brasil, Marcus Handofsky e Bernhard König, do qual tinha ouvido falar. Mal me aproximei da mesa, porém, e ouvi atrás de mim a mesma voz enérgica: “Senhora, não!”

Lembrei então que, não faz muito tempo, encontrei no Kunstmuseum de Stuttgart um trabalho de Bruce Nauman muito semelhante a outro que havia visto antes no MAM daqui. O trabalho consiste basicamente numa cadeira e numa viga metálica, ambas penduradas no teto, a uma certa distância entre si. Como, aqui, havia sido impedida de tocar a obra, limitei-me a olhá-la à distância no museu alemão. Estava ali num canto da sala, contemplativa, quando um funcionário do museu, que devia ter seus 80 anos, passou por mim em absoluto silêncio, dirigiu-se ao centro da sala e golpeou com toda a força a cadeira contra a viga, causando um estrondo que chegou a estremecer as estruturas do edifício. Diante do meu atordoamento, ele não disse uma só palavra. Apenas olhou para mim, e seus olhos brilhavam de orgulho.
























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Os corredores da FAU-UFRJ são longos, negros e escorregadios. Impedem a permanência, isolam corpos e acentuam o silêncio que ecoa por todo o edifício. Até hoje tenho medo de me perder nesse espaço com o qual não me comunico e que continua a me assombrar. Mas descobri, nos últimos dias, que uma das portas do terceiro andar abre para um oásis onde reina um misto único de sobriedade e cordialidade. Tudo aí permanece fiel à concepção projetual de Jorge Moreira e equipe, resistindo, sabe-se lá como, às demandas por atualização que quase sempre resultam na subdivisão grosseira dos ambientes e na substituição dos materiais originais por materiais supostamente mais “modernos”. Conservam-se as extensas divisórias baixas, de detalhamento e execução primorosa, que estruturam e articulam os interiores deste edifício público. Boa parte do mobiliário também é original, não há cortinas pesadas vedando o vazamento para o exterior e o piso de madeira segue brilhando depois de meio século. Os funcionários se movem com delicadeza, zelando por cada detalhe, da discreta exposição dos trabalhos de alunos ao cafezinho sempre fresco oferecido por D. Maria, cujo maior orgulho é preservar a integridade desse ambiente tão absolutamente antiornamental. Mal consigo entender como isso se mantém assim, em meio à degradação escandalosa que assola a Cidade Universitária. Mas respiro aqui o elevado ideal do projeto moderno, que se traduz, para mim, num bem-estar nunca antes experimentado nessa escola onde me formei.

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Tarde na FAU / Era uma janela imensa. Olhei para fora. Não havia ninguém por perto. Só aquela chuva trêmula, à qual se juntou uma fina tristeza e alguma esperança.


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Fundão / Passei meses sem ir a Ilha do Fundão, onde estudei nos anos 80, e agora estou encontrando várias novidades por ali. A maioria delas me parece grosseira e insensível ao ascetismo da Cidade Universitária de Jorge Moreira e aos projetos posteriores de qualidade, como o Cenpes de Sergio Bernardes. Mas até agora nada me surpreendeu mais que este edifício, que fica pouco além da Faculdade de Arquitetura. Disseram-me que é um laboratório de pesquisas ligado à Petrobrás, projetado por um arquiteto de São Paulo.
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O mar baixou, e eu acabei perdendo a ressaca que lambeu a cidade no fim de semana. Perdi também um pouco do Rio, acho.

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Alfabarra / Já não é mais verão, e tão cedo não terei outro pôr-do-sol assim. Mas guardei numa foto aquele anoitecer flamejante na Barra da Tijuca. À esquerda, a silhueta das torres do Alfabarra, conjunto residencial projetado por Luiz Paulo Conde no começo dos anos 80. Não é um projeto que mereça destaque. Mas sem ele, o que seria essa paisagem? Olho para ela e me vem à lembrança algo que ouvi há tempos de Antonio Carlos de Almeida Braga, investidor responsável pelo empreendimento. Segundo ele, Lucio Costa não só aprovou sem hesitação o projeto como revelou sentir mesmo a falta de algumas torres ali, para dar equilíbrio à paisagem. O encontro foi confirmado recentemente por Conde, que ainda acrescentou uma informação crucial: o projeto original era predominantemente horizontal. A verticalização teria sido sugerida pelo próprio autor do Plano Piloto da Barra, que considerou o primeiro projeto de Conde “pouco urbano”.
Fiquei pensando nisso depois de ler o artigo de Sergio Magalhães, publicado há poucas semanas no jornal "O Globo", que define a ocupação da Barra como “um erro urbanístico”.

(ver o artigo de Sergio Magalhães em http://cidadeinteira.blogspot.com/2009/02/favela-e-sombra-do-alvo.html)


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No meio das discussões dos últimos dias, redescobri a beleza do texto de Regina Modesto Guimarães, publicado por Lucio Costa, seu cunhado, em "Registro de uma vivência" (Empresa das Artes, 1995):

"Quando é que passou pela nossa cabeça que muro é uma coisa que divide? Muro era uma coisa para a gente escalar."




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O Muro do Rio / Demorou, mas a idéia aventada em 2004 pelo então vice-governador do Estado, Luiz Paulo Conde, finalmente começa a ser concretizada: o governo do Estado do Rio anunciou a construção de 11 km de muros de concreto, com 3 m da altura, cercando várias favelas cariocas. Todas na Zona Sul. O primeiro já está em construção na Favela Santa Marta, em Botafogo (ocupada pela Polícia Militar desde novembro passado). A Rocinha deve ser a próxima, e depois virão Parque da Cidade (também na Gávea), Morro dos Cabritos e Ladeira dos Tabajaras (Copacabana), Babilônia e Chapéu Mangueira (Leme), Cantagalo e Pavão-Pavãozinho (Ipanema), Vidigal (Leblon) e Benjamin Constant. Esta última ainda não conheço, mas soube que fica na Urca, aquele pacato bairro militar bem aos pés do Pão de Açúcar que por si só já justificaria a construção de qualquer muro. O objetivo declarado é conter o crescimento das favelas e a destruição da Mata Atlântica. José Saramago não gostou. Mas a verdade é que encontramos uma maneira imbatível de comemorar os 20 anos da queda do Muro de Berlim.

Posto 4 / abr 09

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A Cidade da Música do Rio de Janeiro segue provocando polêmica, mas felizmente a discussão começa a mobilizar os arquitetos. Meu texto sobre o projeto, postado aqui e republicado no Vitruvius, tem suscitado vários comentários, que podem ser lidos no link abaixo. Para ingressar no debate, basta clicar sobre "envie sua opinião" no final da mesma página.
(ver o artigo e o Fórum de Debates em http://www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc249/mc249.asp)

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Estima-se que cerca de 70% da Rocinha esteja acima da Cota 100. Mas nem tudo são favelas nessa porção de cidade que segue avançando abusivamente sobre as encostas dos morros cariocas. De acordo com uma pesquisa divulgada há cerca de uma semana pelo Instituto Pereira Passos, apenas 30% da área ocupada acima da Cota 100 pode ser definida como tal. O restante compreende edificações residenciais e comerciais de médio e alto padrão, e até um hospital. Quem diria, meu vizinho.












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Cota 100 / Não faz muito tempo fiquei sabendo, em conversa com o arquiteto Pedro Teixeira Soares (secretário municipal de Planejamento na gestão de Marcos Tamoyo), que a criação da chamada “Cota 100” é contemporânea da criação do SPHAN/Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Faz sentido: ambos são alicerçados sobre uma postura preservacionista compromissada com o controle da estética urbana por meio de aparatos jurídicos embasados em critérios nem sempre muito claros, porém marcados por um caráter irrefutável e com frequência de cunho preventivo. E não por acaso, estabelecidos no período do Estado Novo.

Não sei se a “Cota 100” foi aplicada antes noutra cidade, mas aqui, diante de uma topografia tão única, a proteção das encostas é plenamente justificável, uma vez que qualquer construção representa, por princípio, uma ameaça ao ao perfil natural das montanhas e ao meio-ambiente como um todo. O problema é que, a longo prazo, essa estratégia de preservação se mostrou uma faca de dois gumes: ao impedir construções acima de 100 metros de altitude, a “Cota 100” acabou favorecendo a ocupação irregular de vastas áreas centrais, que continuam escapando de qualquer controle (mesmo porque a própria definição de uma cota altimétrica implica uma linha imaginária difícil de ser visualizada).

Isso tem dado margem a argumentos em favor da extinção da “Cota 100”, levantados recentemente, entre outros, por Sergio Cabral. Pode-se perguntar porque o governador do Estado deveria se envolver numa discussão como essa, que diz respeito exclusivamente à esfera municipal. Mas o valor desses terrenos, cuja dificuldade de acesso é largamente compensada pelo fato de oferecem as mais lindas vistas do Rio, não deixa dúvidas de que existem muitos interesses políticos e financeiros por trás de tal proposta. O que é bastante assustador.
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Tiros em Copacabana / Tiroteios nas ruas de Copacabana, uma das principais áreas turísticas do Rio, já não surpreendem ninguém há muito tempo. A expansão das favelas, tampouco. O que o terror mais recente está revelando aos habitantes desta cidade é que, depois de chegarem ao topo dos morros, as favelas cariocas estão descendo. Do outro lado. Nos últimos dias, um grupo de traficantes em fuga que se embrenhou na mata em Copacabana provocou a suspensão das aulas em vários colégios de Botafogo e Humaitá, bairros localizados do outro lado do morro. E isso basicamente porque a favela da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, já está emendando com a favela que fica atrás do Cemitério São João Batista, a qual vem crescendo descaradamente há anos mas só foi “detectada” pelos técnicos da Prefeitura no ano passado, segundo informou o Instituto Pereira Passos. Ironicamente, tanto o prefeito quanto o governador estão sendo poupados de presenciar isso tudo. Ambos encontram-se em viagem pelos Estados Unidos, em seu esforço conjunto para vender a candidatura do Rio para as Olimpíadas de 2016.
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Fenômeno / Por algum motivo o site da Câmara de vereadores do Rio é mais lento do que o meu blog, mas sem pressa ele vai se atualizando. Agora mesmo tive acesso aos nomes que compõem a Comissão Especial do Plano Diretor do Rio de Janeiro: Aspásia Camargo (PV), presidente; Roberto Monteiro (PC do B), relator; Chiquinho Brazão (PMDB), Dr Carlos Eduardo (PSB), Renato Moura (PTC), Lucinha (PSDB), Jorge Bráz (PTdoB), Jorge Pereira (PTdoB) e Rosa Fernandes (DEM), membros. Pelo jeito, a Comissão é a cara do Rio: tem de tudo um pouco. Uma socióloga, um bispo da Igreja Universal e radialista, um empresário, um médico, a mãe de um dentista, um filho de portugueses e até um "Fenômeno". Arquiteto? Urbanista? O que? Para que?
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Hoje está lá, no site da Câmara Municipal: a íntegra do texto do Plano Diretor Decenal do Rio de Janeiro (Lei Complementar 16, de 04.jun.1992). No mesmo link há também outros documentos disponíveis, como a resolução plenária 1052/2006 e vários anexos. Respiro aliviada, já que a disponibilização de dados atualizados na Internet é o mínimo a se esperar de um processo que, de acordo com as diretrizes do Estatuto da Cidade, está condicionado à participação popular.
Não demoro, porém, a verificar que alguns dados estão desatualizados ou incompletos, e já começo a desconfiar de que essa nebulosidade não seja casual. Sobre a Comissão Especial instituída com o objetivo de emitir parecer sobre a revisão do Plano Diretor, por exemplo, eis o que me foi dado saber:
Presidente:
Membros:

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Sexta-feira 13 / Chove forte no Rio. As águas de março me pegam na saída de uma entrevista com o ex-prefeito Luiz Paulo Conde, que me diz que o Rio está melhorando. Quando finalmente chego em casa, encharcada, me deparo com um texto de Lima Barreto, enviado por Goebel Weyne:
"As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas.
Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.
De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.
O Rio de Janeiro da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.
Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!
Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.
O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.
Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.
Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social."
As Enchentes, 1915
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Plano Diretor: Objeto não encontrado / A proposta de criação das AREs, defendida pela ACRJ e colocada em discussão pelo Ministério das Cidades, tem gerado vários comentários no Posto 12 e arredores. O argumento mais forte até agora coloca em questão a necessidade de criar uma emenda constitucional, desconsiderando os instrumentos jurídicos já existentes, como os Planos Diretores e o Estatuto da Cidade.

Hélia Nacif Xavier, que foi secretária municipal de urbanismo do Rio (na gestão de Luis Paulo Conde), alertou-me então para um dado importante: o Rio de Janeiro está atualmente sem um Plano Diretor.

Como assim? Isso significa que uma cidade como o Rio está desprovida do instrumento básico exigido pela Constituição Federal de 1988, e reafirmado pelo Estatuto da Cidade, para orientar sua ordenação e desenvolvimento urbano? O processo de revisão do Plano Diretor do Rio não foi iniciado há uns 8 anos (às vésperas do vencimento do Plano decenal, instituído em 92)?

Hélia esclarece que o Projeto de Lei Complementar enviada pelo Executivo não foi votado ainda pelos Vereadores. Corro então atrás de informações atualizadas e seguras no site da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (www.camara.rj.gov.br). Lá fico sabendo que a primeira reunião de trabalho sobre o Plano Diretor neste exercício ocorreu há apenas 3 dias, com o objetivo de “definir diretrizes para execução dos trabalhos ao longo do ano”. Será fácil encontrar estas diretrizes e tudo o mais que me interessa no link “Plano Diretor: Documentos”, deduzo. Que nada. Não contava com a mensagem que recebo, imediatamente, do computador: “Objeto não encontrado!”.


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"Choque de ordem" / Era um bar como tantos outros por aqui. Só entrei lá umas duas vezes, mas talvez voltasse um dia. Agora não volto mais. Em uma hora, se tanto, ele foi ao chão, bloqueando a principal via da Gávea em plena manhã de quinta-feira. Soube, pouco depois, que foi vítima da operação “Choque de Ordem” da prefeitura carioca. Para dizer a verdade, talvez merecesse. Afinal, como tantos outros bares e restaurantes cariocas, ele também avançava uns bons metros sobre a calçada, com simpáticas mesinhas e cadeiras que muitas vezes começam a ser instaladas nos finais de semana e logo são cercadas por paredes, cobertas por telhado, enfim... Não consegui muitos esclarecimentos com o proprietário (tinha alvará em dia? foi notificado previamente?). E desconfio de que a truculência dessas ações da prefeitura tenha mais a ver com interesses políticos do que com o desejo efetivo de ordenar o espaço urbano carioca. Mas nada justifica o argumento que ouvi do proprietário, enquanto ele tentava mobilizar os passantes, hoje de manhã: “ a senhora conhece alguma varanda regular no Rio?”
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AREs / Recebi do arquiteto Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, ex-secretário municipal de Urbanismo do Rio de Janeiro e atual professor do CAU/PUC-Rio, um texto inédito e bastante informativo sobre as AREs/BIDs. O artigo foi escrito há dez anos, mas publicado apenas em versão resumida no Jornal do Comércio, na época. Disponibilizo-o aqui graças à colaboração da Revista Noz na hospedagem do arquivo.
http://www.revistanoz.com/posto12/augusto_ivan.pdf
2
Revitalização ou Morte / O Ministério das Cidades está abrindo à discussão pública hoje, num seminário em Brasília, a proposta de emenda constitucional que visa à criação das Áreas de Revitalização Econômica (ARE).

A proposta, defendida pela Associação Comercial do Rio de Janeiro, parte do pressuposto de que a revitalização de áreas urbanas degradadas no Brasil – especialmente daquelas localizadas em zonas centrais das grandes metrópoles – só poderá ser levada efetivamente a cabo por meio de uma parceria entre a administração municipal e a iniciativa privada, nos moldes do que tem sido feito há décadas em várias cidades do mundo, de Nova York a Johanesburgo.

Segundo dados divulgados pela ACRJ, só em Nova York já estão em operação 60 BIDs (Business Improvement Districts), e há mais 12 em implantação. Na prática, o setor privado lidera e custeia a operação - que abrange várias ações voltadas para a revitalização econômica e urbanística da área, inclusive a prestação de serviços ditos complementares aos serviços públicos (intensificação da limpeza e vigilância das ruas, construção e manutenção de banheiros públicos, paisagismo etc) - , e a prefeitura se encarrega de arrecadar os recursos, ficando com 2% do recolhimento, a título de taxa de administração.

Pelo que pude apurar, a contribuição é voluntária para uns e obrigatória para outros: os moradores e proprietários de imóveis residenciais ficam isentos da contribuição, enquanto os proprietários de imóveis não-residenciais que se recusem a contribuir podem vir a ser inscritos na dívida ativa do município.

Prevê-se que o projeto piloto seja implantado já em 2010 no Rio. Mais especificamente, na área da Av Chile, no centro da cidade, onde estão instaladas grandes empresas como Petrobrás e BNDES.

Já há quem diga que se trata, no fundo, de mais um imposto – afinal, a limpeza, iluminação e segurança do espaço público já são objetos de tributos salgados, que tem crescido em ritmo assustador nos últimos anos (tive notícias recentemente de que uma casa de cerca de 1000 m2 na zona sul do Rio, que não passou por nenhum acréscimo de área nos últimos anos, teve seu IPTU multiplicado por seis, entre 2008 e 2009).

Mas também me parece que já é mais do que hora de considerar seriamente, e com a cautela necessária, iniciativas que prevêem ações conjuntas, no espaço urbano, entre as esferas pública e privada. A questão é como garantir a lisura desses processos num país como o Brasil, onde os interesses privados invariavelmente falam mais alto.
É horrível admitir isso, mas eu mesma, volta e meia, tenho ímpetos de estacionar sobre a calçada.

Posto 3 / mar 09

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Achados e perdidos / Foi aberta sexta passada e vai até 15 de abril, no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico, uma exposição dos últimos “achados” do acervo de Lucio Costa, que vem sendo organizado pela Casa de Lucio Costa com patrocínio da Petrobrás. Maria Elisa, que é filha de Lucio, atual presidente da Casa e também curadora da exposição, apresenta um enxuto mas precioso conjunto de desenhos, fotos e documentos de época, além de duas maquetes de casas projetadas pelo arquiteto (Thiago de Mello e Casa sem Dono). Algumas coisas foram expostas antes, outras vêm à luz agora pela primeira vez. Dentre elas, imagens de família que se misturam a registros de cidades como Nova York, Paris e Brasília, vistas através da super-8 comprada por Lucio nos anos 30, em Nova York, enquanto projetava o Pavilhão do Brasil com Niemeyer. As imagens passam depressa – num instante o Central Park, noutro, a Villa Savoye - mas às vezes tem-se a impressão de ouvir, ao fundo, o riso das crianças, a voz de Leleta, o motor das máquinas que constróem a nova capital. Raros acervos de arquitetos cariocas tiveram a mesma sorte.