15

Parece delírio / Ainda não digeri a estranha visita de RK ao Brasil, e continuo tentando juntar as informações que me chegam, daqui e dali. Soube esta semana que ele também deu uma palestra na UnB. E logo hoje, 11 de Setembro, me chega um link com um relato de uma entrevista feita em São Paulo.

A entrevista foi feita por Gabriel Kogan para a revista Bamboo, que não conheço (pelo título, me sugere algo a ver com sustentabilidade; mas será?). O entrevistador revela, entre outras coisas, que RK e Obrist visitaram a Casa Bola, de Eduardo Longo, e se impressionaram o que viram: Obrist sugeriu fazer um livro, e RK resumiu a visita como "a sua experiência arquitetônica mais forte dos últimos 10 anos".

Mas ainda mais espantoso foi saber que foi "bem no Pedregulho" que o tal amigo - e sócio - de RK foi assassinado no Brasil (ver S,M,L,XL). Ainda assim, o entrevistador insistiu para que RK conhecesse a obra. E ele deve ter ouvido a sugestão, porque soube por outra fonte, agora do Rio, que pelo menos uma pessoa foi contatada para levá-lo até lá. Mas o contato foi feito em cima da hora e esta pessoa não pôde ir. Então ainda não sei se RK esteve lá.

Parece delírio.

Ver aqui: http://cosmopista.wordpress.com/2011/08/23/um-dia-com-rem-koolhaas/





14


Roadtrip to Rem



"Terça-Feira, 23, estava fazendo minha inspeção diária aos posts sobre arquitetura e, por acaso, li em algum lugar, em que não me lembro de ter entrado antes, que Koolhaas daria uma palestra no Sesc Pompéia no dia seguinte. Umas semanas atrás, estava procurando intensamente alguma noticia sobre a “maratona” em que Hans Ulrich entrevistaria Rem Koolhaas, Vik Muniz e Hebe Camargo, entre outros, no Rio. Sem conseguir qualquer notícia muito concreta, e após conversar com amigos, concluí que o evento tinha sido cancelado. A notícia sobre São Paulo veio então substituir minha frustração. Desse momento em diante estava disposto a fazer o que fosse necessário para ouvir Koolhaas em São Paulo.

Liguei pro Sesc, e após ser redirecionado para todos os ramais internos, me perguntaram se eu tinha recebido um convite, sem o qual não seria possível entrar. Perguntei como tinha sido feita a distribuição dos convites e não souberam me informar, mas disseram que o Instituto Bardi havia organizado o evento. Liguei pro Instituto e fui de novo redirecionado algumas vezes, até chegar a uma moça simpática que explicou que o convite havia sido oferecido a poucas pessoas mas havia a possibilidade de enviar um e-mail solicitando uma vaga. Ela me passou o endereço, já dizendo que seria difícil, porém deixando alguma esperança. Liguei pra uns amigos, um deles disse da possibilidade de ficarmos na casa de uma amiga em SP, consegui o carro com meu pai e coloquei uma escova de dentes e um par de roupas na mochila. Mas até quarta-feira, às onze horas, não tive resposta. Liguei então novamente pro Instituto e fiquei sabendo da possibilidade de retirar ingressos na entrada, pois os convites que não fossem utilizados seriam distribuídos por ordem de chegada. Fiquei um tempo explicando que sairia do Rio de Janeiro especialmente pra isso, e como a palestra era importante pra mim, mas a moça simpática disse que não era possível garantir mais convites, e só. Saímos do Rio às 15h, sem convite e sem nunca ter andado de carro em São Paulo, mas confiantes no desempenho de um pequeno GPS que levávamos conosco. Na primeira hora de viagem o celular de uma amiga vibrou, com a confirmação dos nossos convites recebida por e-mail. Pelo visto a moça simpática se sensibilizou com o nosso caso, agora a viagem seria menos tensa.

Acredito que o episódio reflete dois problemas atuais da arquitetura no Brasil:

1) seu isolamento em relação às demais áreas do conhecimento. Um autismo que parece vir de uma tentativa (febril) de proteção ou auto valorização, culminando em uma especialização que impede a troca com outras disciplinas. É o arquiteto que só consegue conversar com arquiteto e desmerece qualquer comentário vindo de outra área, num processo de auto-exclusão que dá no que deu: um dos maiores arquitetos do mundo vem ao país e o que era pra ser do interesse de todos acaba passando quase em branco.

2) a ausência de um ambiente transparente de discussão critica sobre nossa profissão. O fato de uma palestra dessa importância ser fechada, ou tão restrita, mostra que ainda não estamos preparados para este tipo de debate. Acredito que isto tem a ver com a base do nosso sistema de ensino, ainda beaux-artiano, em que o arquiteto é ensinado a “fazer arquitetura”, e o debate e a critica são marginalizados.

RK começa sua fala definindo um herói: alguém sem defeito e admirado. Diz que o que fizemos até agora foi a construção e mitificação dos nossos próprios heróis. E propõe o processo inverso, de desmitificação, como alternativa para começar a construir um ambiente mais fértil à discussão e produção intelectual. Sempre cético, Koolhaas estrutura sua palestra com base num diagrama de sua trajetória pessoal. Um gráfico com dois componentes principais variando ao longo do tempo: a economia de seu escritório e a economia mundial. E dividido em 5 fases: “Starving artist, Start up, Take off, Star architect, Retreat”. O diagrama já tinha sido apresentado dois meses antes numa palestra no Berlage Institute em Rotterdam (ver “Three in one” aqui:
http://vimeo.com/25071414). Desta vez, porém, RK opta por uma explicação mais detalhada da sua trajetória, volta e meia pautada por uma referência ao universo brasileiro – como quando citou os prédios da Esplanada dos ministérios em Brasília como um dos motivos de ter se tornado arquiteto.

Pessoalmente, achei a palestra fantástica. Gosto de como RK responde às perguntas, mesmo quando elas são péssimas. Parece que nunca descansa, está sempre contestando a posição em que ele mesmo se encontra. Ao ser perguntado sobre seu sentimento em relação à cidade de São Paulo, por exemplo, respondeu que era necessário distinguir sentimento de impressões, e disse que como intelectual não deveria passar impressões.

Vejo sua vinda como um marco do momento que nossa arquitetura está vivendo, uma fase de reajuste de valores e escolhas de novas direções. Fico feliz de ter feito este esforço pra ir assisti-lo e de ter feito parte do público jovem que estava lá. Mas espero que com isso coloquemos em debate a maneira como discutimos arquitetura e quais os meios que utilizamos para fazê-lo.

Aliás, filmaram a palestra, só falta divulgar.
"


(por Gabriel Kozlowski Maia, aluno do Curso de Arquitetura da PUC-Rio)


13

Have you seen Koolhaas?


12

Koolhaas / Por um telefonema recebido no meio da tarde de quarta, fiquei sabendo que Rem Koolhaas estava no Brasil. Se eu tivesse sabido antes, provavelmente teria ido ouvi-lo no SESC Pompéia, em S.Paulo, no dia seguinte. E acredito que muitas outras pessoas também. Mesmo que a informação - também incerta - fosse de que era necessário apresentar um convite, concedido não sei por quem, a um público bem restrito.


Bom, mas então estou aqui juntando as notícias que me chegam, daqui e dali: que ele contou que um de seus interesses pela arquitetura nasceu quando viu fotos de Brasília na revista Time, aos 15 anos. Que comparou São Paulo a Jacarta e Lagos. E que também transitou pelo Rio (pela segunda vez, pelo menos), onde visitou o MAM. Mas não é pouco para um arquiteto tão grande?


A foto acima é de Paulo Liebert e foi extraída de matéria publicada no Estado de São Paulo: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,sp-parece-jacarta-e-lagos-diz-koolhaas,763931,0.htm


11

Parque Olímpico / Então é isto: o concurso foi vencido pelo escritório inglês AECOM, também responsável pelo plano geral urbanístico do Parque Olímpico de Londres. A equipe foi coordenada por um arquiteto americano, Bill Hanway, em parceira com o brasileiro Daniel Gusmão.


Sobre este, só o que sei, por ora, é o que o Google me diz: que é formado pela UFRJ e fez mestrado na Universidade da Pensylvania, onde trabalhou por oito anos no escritório KMD – Kaplan McLaughlin Diaz Architects. E desde 2004, tem escritório no Rio: http://www.dg-arq.com/


O segundo lugar ficou com o projeto do arquiteto americano Ron Turner, que trabalhou em associação com os escritórios cariocas Coutinho, Diegues & Cordeiro e Miguel Pinto Guimarães. E o terceiro foi dado a um arquiteto português, Tomás Almeida Fernandes Salgado.
9

Parque Olímpico / Sexta agora, dia 19, às 9:30, sai a divulgação do resultado do concurso internacional de projetos para o Parque Olímpico. A cerimônia, aberta a todos, será no Parque Aquático Maria Lenk, na Av. Embaixador Abelardo Bueno, s/n° - Portão 4 (Complexo Esportivo do Autódromo, Barra da Tijuca). Todos os projetos concorrentes (60, no total) estarão em exposição lá mesmo na sexta, e a partir de terça-feira na sede do IAB.

8
Dutão / Os viadutos são, em geral, deplorados como um dos piores legados do urbanismo modernista. Seu traçado, quase sempre alheio ao tecido urbano existente e justificado por argumentos estritamente técnicos (sobretudo do ponto de vista da eficácia do tráfego automobilístico), gerou, de fato, muitas cicatrizes e feridas que permanecem abertas no espaço urbano.

Mas o viaduto é também uma grande cobertura. Uma espécie de gigantesca marquise que aos poucos a cidade, bem ou mal, incorpora – como tudo ou quase tudo, parece - e passa a abrigar uma série de atividades imprevistas e surpreendentes: uma feira de usados (sob a Perimetral, na Praça XV), uma academia de boxe improvisada (sob o viaduto do Café, em São Paulo). Ou o Baile Charme em Madureira, subúrbio do Rio. O baile já completou vinte anos e transformou o Viaduto Negrão de Lima em “Dutão”, numa clara demonstração da relação afetiva que também pode surgir entre uma agressiva obra viária e a comunidade local.


Difícil descrever o baile. O espaço é formado basicamente por dois recintos contíguos, definidos pela estrutura do viaduto e suas alças de acesso. Um cercado em chapa metálica envolve uma área onde há duas ou três barraquinhas de bebida e salgadinhos (o ingresso é pago: 3 Reais a dama e 5 o cavalheiro) e banheiros na extremidade oposta (sem água, mas com papel higiênico à vontade). Há também mesas e cadeiras de plástico vermelho, onde poucos se sentam, e só. O DJ fica diante de três pilares coloridos (um deles é rosa). E os freqüentadores são homens e mulheres – mais homens que mulheres, e em sua maioria negros – que se vestem com capricho para ir dançar sob o viaduto, ao som de uma versão eletrônica da black music dos anos 70, numa coreografia coletiva cujos passos a maioria conhece, intui ou pelo menos segue (a quem? difícil saber).

As fotos são da Cecilia e foram feitas ontem, por volta da meia-noite. Uma hora antes, quando chegamos, pensamos que não havia nada ali.


7

Desconexão / Podia ser Matta-Clark. Mas é o estado atual da minha cozinha, depois que pisei outro dia numa misteriosa poça d'água, junto do fogão. Sou arquiteta e moro num edifício de classe média alta num dos bairros mais valorizados desta cidade que se transforma em ritmo cada vez mais acelerado para sediar os megaeventos que vem por aí. Mas se de repente aparece uma poça d'água no chão da minha cozinha, é isto: corro desesperadamente atrás de alguém cujo nome mal sei, mas a quem dou o direito de entrar na minha casa, cheio de ferramentas toscas, e sair quebrando a minha parede diante dos meus olhos incrédulos, até encontrar, sob o azulejo, um inofensivo - aparentemente - joelho de plástico. Rachado. Então basta dar um pulo na esquina, comprar uma nova conexão, idêntica à anterior, e colar ali, numa junção de materiais e elementos díspares que francamente não pode durar muito. Depois de uns dias, se eu tiver sorte e a água não voltar a jorrar noutro ponto da casa, o bom moço volta, corta uns azulejos, aplica-os de volta na parede e fecha tudo (usando, com enorme destreza, um pedaço gasto de sandália havaiana para nivelar a superfície). E então eu não vejo mais nada, só um pequeno remendo ali a me lembrar que haverá sempre uma infiltração qualquer, em estado de latência, em algum ponto cego da casa. Agora tenho uma cozinha semi-destruída diante de mim, mas agradeço ao bom-moço, acerto as contas com ele e rezo para que isso nunca mais me aconteça. Deus do céu, quando é que a arquitetura vai acertar o passo com a tecnologia?

6
Bienal Buenos Aires /
"RioNow" deve ser o título da minha apresentação na XIII Bienal de Arquitetura de Buenos Aires, que acontece entre 10 e 14 de outubro
. E do que mais eu poderia falar, senão de como vejo minha cidade agora? A programação está aqui: http://www.bienalba.com/
5

Parque Olímpico / Sexta que vem, dia 19, sai o resultado do concurso do Parque Olímpico. 60 equipes do mundo inteiro estão disputando o projeto. Ouvi dizer que há equipes fortes concorrendo, como as de Zaha Hadid, Rafael Vinoly e Paulo Mendes da Rocha. Mas a confirmação só virá mesmo quando o resultado sair e os projetos forem identificados. A divulgação do resultado será no Parque Maria Lenk, em Jacarepaguá.


Em tempo: a coordenação do concurso nesta reta final ficou a cargo do arq Alder Catunda (que substituiu o arq João Pedro Backeuser, vencedor do concurso do Porto Olímpico).



4



Metrô / As obras do metrô na Barra da Tijuca seguem em ritmo acelerado. Mas sua conexão com o sistema metroviário existente continua gerando polêmica. Amanhã, segunda, o movimento "O Metrô que o Rio precisa" promove uma discussão sobre o assunto no pilotis da PUC. O movimento é formado por 30 associações de moradores e representantes da sociedade civil e defende o traçado original da Linha 4 (Jardim Oceânico-Centro), passando pela Gávea, Jardim Botânico, Humaitá e Laranjeiras (conforme o mapa ao lado, e não como um prolongamento da já saturada linha 1, passando por Ipanema e Leblon, conforme opção anunciada pelo Governo do Estado). A mesa será composta por vereadores e especialistas em transportes. No pilotis, das 12 às 14 horas.









3
"A Cidade como logomarca" /
É, acho que não vai dar pra passar sem o jornal. Todo o caderno Prosa & Verso d'O Globo de hoje é dedicado à arquitetura e à cidade, e alimenta a discussão sobre os megaeventos que estão transformando o Rio. Tem entrevistas e artigos de Carlos Vainer, Raquel Rolnik, Jean Comaroff, Beatriz Jaguaribe, Margareth Pereira, Sergio Bruno Martins, Paulo Thiago de Mello, além da minha resenha do catálogo do concurso Morar Carioca.
2

Jornal sem Beiras / Cansei de ler jornal. Mas não consigo suspender a minha assinatura. Nas últimas duas semanas, pelo menos uma vez por dia me liga uma moça muito gentil oferecendo descontos e vantagens cada vez maiores e mais tentadoras. Já tentei de tudo: disse a ela que estou de mudança pro exterior, que não tenho dinheiro, que morri. Já estou quase lhe dizendo a verdade: que não quero mais ler jornal. Procuro notícias que não estão nas bancas. E encontro: na minha calçada cotidiana, me deparo esta manhã com o "jornal de artigos não lidos". São notícias de favelas, pregadas aos tapumes da Gávea. O texto é longo e eu tenho pressa, mas paro diante do fusca-dinossauro, leio e gosto. Depois, já em casa, descubro que o jornal é projeto de uma designer de Bruxelas, Annelies Vaneycken, e integra o Europalia, festival bienal de arte que acontece em outubro na Bélgica, e este ano é dedicado ao Brasil (incluindo exposições de Paulo Mendes da Rocha, Lelé, Sergio Bernardes, Volpi, Neoconcretismo e mais) . Está aqui: http://www.reporter-sem-beiras.info/. Ou por aí, pela cidade.

Posto 8 / ago 10





1
Art Déco /
Entre os dias 14 e 21, o Rio vai sediar o 11º Congresso Mundial de Art Déco. Os "World Congress on Art Déco" são organizados pela International Coalition of Art Déco Societies (ICADS) e acontecem bienalmente desde 1991. Os três últimos congressos foram realizados em Nova York, Melbourne e Montreal. No Rio, o encontro vai se realizar no Hotel Windsor Atlântica, mas a programação inclui visitas a coleções particulares e até ao Cristo Redentor. Ver aqui: http://www.congressoartdecorio.com/index.html


8
Talk to me / Pedro Cruz é um jovem português, com uma formação ampla que inclui estudos em Física e Informática e um estágio de um ano em Belo Horizonte.

Um de seus trabalhos recentes está na exposição “Talk to me”, inaugurada esta semana no MoMA, em NY: um mapa digital de Lisboa que explora a metáfora da circulação sanguínea na análise do tráfico da cidade. Dá pra sentir o coração de Lisboa batendo:

http://pmcruz.com/information-visualization/lisbons-blood-vessels

Vale a pena também ver toda a seção da exposição dedicada especificamente às cidades:
http://wp.moma.org/talk_to_me/whos-talking/city/



7
Cadê o trem? / Três exposições em cartaz não podem deixar de ser vistas: José Resende (MAM), Saul Steinberg (IMS) e Arthur Bispo do Rosário (Caixa Cultural).

A de José Resende tem provocado discussão por conta das peças publicitárias espalhadas pela cidade, que mostram duas obras que na verdade não estão na exposição: o "Passante", instalado há anos no Largo da Carioca, e os vagões suspensos, trabalho efêmero realizado em São Paulo no último ArteCidade. "Mas cadê o trem?", perguntou uma senhora ao visitar a exposição. Parece que ela estava enfurecida, e chegou a exigir o dinheiro de volta. Mas o melhor foi a resposta dada pelo artista, quando soube do ocorrido: "o trem está aí, só que desmontado."

Por sinal, até o final da exposição o Rio verá mais um trabalho de José Resende, só que instalado externamente, do outro lado da passarela que leva ao MAM (e também é projeto de Affonso Eduardo Reidy). A única informação, por enquanto, é que se trata de um trabalho que faz uso de uma luminária pública e de energia eólica, do qual serão instaladas quatro unidades no centro do Rio.


(A foto é de Barbara Cutlak, uma das editoras da Noz. Aliás, cadê a Noz?)


6
as Olimpíadas, as Vargens e Lucio Costa /
O Ministério Público entrou com uma ação pedindo a suspensão da nova legislação urbanística que abrange uma extensa área na zona oeste da cidade, incluída no Plano Piloto de Lucio Costa (ao lado). O chamado PEU (Projeto de Estruturação Urbana) das Vargens compreende Vargem Grande, Vargem Pequena, Camorim, parte da Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Jacarepaguá - ou seja, uma área dotada de um riquíssimo ecossistema, já agredido pela urbanização acelerada e desordenada das últimas décadas, onde agora estão previstas várias instalações olímpicas.


O questionamento das normas em questão foi iniciado há mais de um ano, como se pode ver aqui:
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/10.112/1825
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.116/3385



Vale a pena também ler (e reler) o Plano Piloto de Lucio Costa:
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.116/3375

O texto (que é de 1969) começa com uma frase que soa ainda mais grave hoje: "O problema do aproveitamento da enorme área que se estende dos Campos e do Pontal de Sernambetiba até a Barra da Tijuca, abrangendo em profundidade a vasta baixada de Jacarepaguá, não é de fácil equacionamento."

5

Cidade? / Não canso de recomendar aos meus alunos que leiam Koolhaas. Para mim, é o pensamento mais vivo sobre a cidade contemporânea, e por isso mesmo fundamental neste momento em que o Rio se vê diante de tantas transformações.


Três de seus textos de referência sobre o assunto - Junkspace, Generic City e Bigness - foram publicados recentemente em português (de Portugal) no livro "Três textos sobre cidade", da editora Gustavo Gili.


E agora surgiu uma entrevista na Internet em que, talvez pela primeira vez, Koolhaas fala do Rio. A entrevista começa assim: "As características mais importantes que usamos para definir cidades - que nós definimos tipicamente em termos de espaços públicos, coerência de ruas, praças, composição geral - essas terminologias estão se tornando cada vez menos relevantes para a compreensão do que é a cidade. Se você olha para Dubai ou Beijing ou qualquer coisa no Pearl River Delta, por exemplo, o que vê é que há uma liberdade muito grande aplicada à noção de cidade. A profissão da arquitetura está equipada para lidar com um tipo de cidade - a cidade que tem forma - e permanece, quase por inteiro, inadequadamente equipada para pensar num outro tipo de cidade."


E não falta um alerta dirigido especificamente ao Rio: "se você olhar para o Rio agora, vê que algumas favelas estão sendo consideradas dignas do status de Patrimônio Mundial. Então existe obviamente uma grande consciência quanto ao valor das coisas existentes. Mas isso tem um efeito paradoxal: as coisas existentes são muito acriticamente mantidas porque nem todas realmente merecem vida eterna."


A entrevista está aqui: http://www.pwc.com/us/en/cities-of-opportunity (tem uma versão reduzida em vídeo, mas entrando na seção Interviews é possível também baixar a versão integral , transcrita, em PDF).





4
Irmãos Roberto / Mais um documentário sobre arquitetura está sendo produzido: a produtora Titânio realiza um filme sobre os irmãos Roberto, dirigido por Tiago Arakilian.


Uma das obras em destaque é o edifício Julio de Barros Barreto, em Botafogo (Rua Fernando Ferrari, 61, ao lado da Universidade Santa Úrsula). O projeto é de final dos anos 40 e se organiza em dois blocos laminares com apartamentos duplex que se dispõem em ângulo e partilham a mesma torre de circulação vertical, aos fundos, que funciona como uma espécie de dobradiça. Como em outras obras dos Roberto, aqui também a fachada palpitante é a característica mais forte do projeto.
3

Porto Olímpico / O resultado do concurso do Porto Olímpico, divulgado recentemente, desencadeou uma grande polêmica. Por um lado, questiona-se o suposto favorecimento da equipe vencedora, pelo fato de seu coordenador ser membro do Conselho Deliberativo do IAB, sócio de um membro do Conselho Superior da mesma instituição, coordenador do concurso do Parque Olímpico, também promovido pelo IAB-RJ, e filho do proprietário de uma construtora envolvida em obras públicas na área portuária. Por outro lado, o IAB se defende argumentando que o edital do concurso jamais impediu a participação de membros de seus Conselhos Deliberativo ou Consultivo, e alega que o processo de seleção seguiu as normas de anonimato determinadas e apresentadas pelo IAB, e tampouco questionadas anteriormente pelos concorrentes. Além disso, afirma que a área de desenvolvimento do Parque Olímpico é outra, e que as obras relacionadas ao concurso não estão abrangidas nas intervenções a serem implementadas pelo consórcio integrado pela construtora mencionada.


A discussão é boa, na medida em que levanta questões não só legais, mas também éticas, e abre um debate sem precedentes sobre a prática profissional da arquitetura no Brasil, num momento delicado, de grande aceleração de oportunidades e globalização de investimentos.


Os dois recursos apresentados por concorrentes do concurso, e já respondidos pela Comissão julgadora, estão aqui: http://www.iabrj.org.br/concurso-porto-olimpico-recursos-e-julgamento-dos-recursos. E todos os projetos concorrentes seguem expostos na sede do IAB, na Rua do Pinheiro, 10.

2

Mindlin / A discussão sobre o Pavilhão do Brasil em Veneza, provocada pela infeliz declaração do cineasta Neville d'Almeida, desdobrou-se numa matéria publicada hoje na Folha de S.Paulo.

Aproveito para esclarecer, mais uma vez, que o Pavilhão é assinado por Mindlin em conjunto com Giancarlo Palanti, Walmyr Amaral e Amerigo Nino Marchesin - sendo a equipe composta, portanto, por dois arquitetos italianos (Palanti, como sócio de Mindlin na época, e Marchesin como indicado pela direção da Bienal de Veneza para coordenar os trabalhos na Itália).

Há mais sobre o Pavilhão - inclusive a proposta descartada de um edifício-ponte, muito semelhante ao projeto de Sergio Bernardes para o Pavilhão da CSN no Parque do Ibirapuera - na dissertação de Aline Coelho Sanches ("A obra e a trajetória do arquiteto Giancarlo Palanti. Itália e Brasil", USP-S.Carlos, 2004), que pode ser acessada aqui: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/18/18131/tde-24062008-100259/pt-br.php


Já sobre a reforma do edifício do Jornal do Brasil, veja-se o artigo de Roberto Segre: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/09.026/1787

Posto 07 / jul 11

1

Ministério / Passei uns dias desplugada, e na volta, encontro uma série de emails alarmantes sobre as obras de recuperação do edifício-sede do Ministério da Educação, atual Palácio Gustavo Capanema. Nem tive tempo de me informar corretamente ainda, mas transcrevo a seguir um dos documentos que me chegaram, assinado por Maria Elisa Costa (arquiteta, filha de Lucio Costa e presidente em exercício da Casa de Lucio Costa).


"EM DEFESA DO PALÁCIO CAPANEMA


O assunto é importante e urgente: por um lado, cogita-se de propor à UNESCO a inclusão do antigo Ministério da Educação e Saúde na lista dos Bens Culturais da Humanidade; e por outro, existe o propósito de instalar no edifício um Centro de formação de técnicos para o IPHAN (inclusive denominado Centro Lucio Costa) cuja criação contará com suporte da UNESCO através de Projeto de Cooperação Técnica Internacional.


Diante de um programa tão ambicioso, percebe-se uma tendência a pensar na adaptação dos novos usos ao edifício com grande desenvoltura, como se o Capanema fosse um prédio normal – corre-se o risco de que os responsáveis (IPHAN e UNESCO) se esqueçam do mais importante: a preservação da integridade arquitetônica do edifício, que ocupa um lugar excepcional no movimento moderno, não apenas no Brasil, mas internacionalmente.


A inclusão do antigo “Ministério” na lista do Patrimônio Mundial se justifica, inclusive, por duas características de particular significação:

1 – O exemplar cuidado com o meio ambiente, não apenas pela proteção da fachada norte com quebra-sol, mas no sentido de tirar proveito das condições naturais propiciadas pela localização do edifício em frente à barra da baia de Guanabara, ou seja, dispondo de ventilação natural constante – preocupação pioneira, já que, em 1936 (data do projeto) tal abordagem não era prioritária, como hoje é.


Assim, a instalação de ar condicionado central no prédio, além de um contra-senso, seria trair o caráter ecológico pioneiro que lhe é inerente.


Passo a palavra a Lucio Costa, transcrevendo trecho de carta por ele enviada em 1986 ao então Ministro da Cultura Celso Furtado:
“A ventilação natural foi devidamente estudada, antecipando-se, pois, ao atual movimento internacional no sentido da retomada do conceito de “arquitetura bioclimática”, em boa hora assumido por Joaquim Francisco de Carvalho: de fato, graças à caixilharia movediça em todos os vãos do prédio, quando a viração for leve pode-se deixar o caixilho menor descer externamente no peitoril; quando ventar, basta deixar apenas uma nesga aberta de cerca de 6cm junto ao teto, isto para impedir o tilintar das lâminas soltas das venezianas: é quanto basta para estabelecer corrente de ar com os vãos livremente abertos da fachada norte protegida por “quebra-sol” que, conquanto velhos de meio século, não devem ser substituídos, como se pretende, pois ainda funcionam normalmente e podem ser recuperados; apenas nos gabinetes extremos, onde a prumada dos elevadores bloqueia essa ventilação cruzada, cabe instalar – como aliás em alguns casos já ocorre – ar-condicionado.”

Entretanto, para desespero de Lucio Costa, a recomendação da abertura de fresta de 6 cm junto ao teto nunca foi experimentada – as pessoas esquecem, inclusive, que todos os painéis envidraçados da fachada sul são móveis – e só usam a parte de baixo, ou seja, quando venta, os papeis, naturalmente, voam. Seria uma homenagem a ele levar a sério, hoje, a sua proposta, e verificar, ao vivo, o resultado.


2 – O objetivo de integrar ao espaço arquitetônico obras de arte do melhor quilate, que ali, além de seu valor individual, passaram a fazer parte de um todo maior – incluídas como peças não apenas participantes, mas essenciais à própria expressão arquitetônica – compreendida como uma modalidade de “partitura musical” – da qual fazem também parte o mobiliário, as luminárias, enfim, todo o equipamento de ambientação interna: o “Ministério” é um todo.

As imagens anexas da disposição interna do grande saguão que contém o mural de Portinari falam por si: na primeira, em preto e branco, o original, e na segunda a desastrada inclusão de sancas no teto para iluminar o painel, além de um cordão de isolamento e mais o deslocamento das cadeiras – ou seja, retirando do painel a sua função de parte integrante do espaço arquitetônico, melancolicamente transfigurado em mera sala de qualquer museu.

O fundamental é que toda e qualquer intervenção física no prédio tenha como objetivo principal não comprometer sua identidade original em nome dos novos usos, quaisquer que sejam.

Maria Elisa Costa
Rio, 5 de julho de 2011"


Depois disso recebo um outro email, também de Maria Elisa, assustada com a notícia de que a licitação para as obras no edifício foi feita pelo menor preço, sem qualificação prévia. Segundo ela, o resultado foi que ganharam duas empresas de São Paulo e uma de Curitiba, inteiramente alheias ao prédio.


Repito que não sei de nada ainda, mas tenho um aperto no coração. E como ando lendo Rubem Braga, logo me pergunto: "será que só eu sou assim, ou os outros disfarçam melhor?"
24
O IAB e o Rio / É muito bom constatar que os arquitetos estão recuperando um papel de destaque nas discussões sobre a cidade, como ficou claro esta semana na cerimônia do anúncio do resultado do concurso do Porto Olímpico, que levou à sede do IAB um número expressivo de autoridades públicas, arquitetos, estudantes e jornalistas, entre brasileiros e estrangeiros.

A presença do próprio prefeito na cerimônia mostrou que ele não só respeita a instituição como se sente à vontade na casa dos arquitetos, e o tom que imprimiu à sua fala revelou um tom de camaradagem poucas vezes visto entre os arquitetos e a prefeitura do Rio de Janeiro, mesmo na gestão do arquiteto e prefeito Luiz Paulo Conde.

Se o IAB, porém, aceitar ser “uma extensão da prefeitura”, como sugeriu então o prefeito, irá se comprometer e comprometer a própria prática da arquitetura. Como organização profissional essencialmente ligada à arquitetura e à cidade, o IAB deve procurar sempre manter boas relações com a prefeitura, claro. No entanto, como instituição não-governamental que também é, deve cuidar igualmente de resguardar sua independência em relação ao poder público, em todas as suas instâncias. A autonomia, afinal, é uma condição indispensável à reflexão e ao exercício da crítica, tão necessário quanto a prática projetual da arquitetura e do urbanismo, que no Rio felizmente vem se intensificando.
23
Porto Olímpico / Mais sobre o concurso, inclusive imagens dos outros projetos premiados, aqui: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/06/110628_olimpiada_concurso_jc.shtml
e aqui:

Em tempo: vários projetos contaram com a participação de arquitetos estrangeiros. O primeiro colocado (João Pedro Backheuser), por exemplo, trabalhou em associação com arquitetos de Barcelona (Luis Alonso Calleja, Sergi Bacaguer Barbadillo, Ignasi Riera Mas e Miguel Moragues Canela), e o quarto lugar (equipe de Jorge Mário Jáuregui) teve a participação do escritório de Jorge Silvetti, arquiteto argentino radicado nos EUA e professor da Universidade de Harvard.








22

Porto, finalmente / O registro é amador, mas serve pra matar a curiosidade: está aí o projeto vencedor do concurso do Porto Olímpico, de João Pedro Backheuser (Doica) e equipe. Os demais premiados foram Roberto Aflalo Filho (segundo lugar), Francisco Spadoni (terceiro lugar), Jorge Mário Jáuregui (quarto lugar), Eduardo Mondolfo e Daniel de Barros Guzman (menções honrosas). Todos os 83 projetos habilitados no concurso estão em exposição até o final de julho no IAB, que esta manhã estava lotado - e bonito - como nunca.




21


Agenda / Depois de meses de muita expectativa, finalmente sai amanhã, terça, o resultado do concurso de projetos do chamado "Porto Olímpico". A cerimônia será às 10 horas no IAB (Rua do Pinheiro, 10, Flamengo), onde todos os projetos que participaram do concurso também estarão expostos.


E à noite tem também o lançamento do livro "Warchavchik. Fraturas da vanguarda", com uma mesa-redonda com o autor, José Lira (USP), Margareth Pereira (UFRJ) e eu, como mediadora. Na Livraria da Travessa do Leblon, às 19:30.








20

Veneza / A nota saiu hoje na mesma coluna "Gente Boa", do jornal O Globo. E as fotos são de Abilio Guerra, a quem agradeço.
19
Bienal de Veneza /

Caro Neville D'Almeida,

como eu lhe respeito, me sinto na obrigação de lhe dizer, um pouco constrangida, que o pavilhão do Brasil em Veneza é projeto de um dos maiores arquitetos brasileiros do séc XX: Henrique Mindlin (junto com Giancarlo Palanti, Walmyr Amaral e Nino Marchesin). É verdade que o pavilhão, projetado entre o final da década de 1950 e início da década de 1960, está em estado deplorável. Mas por que não cuidamos de recuperá-lo, devolvendo-lhe a sua dignidade? Seria também uma bela homenagem a Mindlin, cujo centenário de nascimento se celebra justamente este ano.

No mais, já pensou se todos os edifícios que estão em mau estado de conservação em Veneza fossem derrubados? E se fosse esse o caso, deveríamos entregar a tarefa de construir um pavilhão "ao nível da grande arte brasileira" a uma empreiteira, como você propõe? Não seria o caso de fazer um concurso público, convocar os melhores arquitetos brasileiros, ou quem sabe entregar o projeto a Paulo Mendes da Rocha, simplesmente?

Caro Neville, desculpe o meu tom assim um pouco aflito, mas por último quero lhe dizer também que em arquitetura, como em arte, tamanho nunca foi documento. Se o espaço expositivo é insuficiente, que se projete uma extensão, um anexo, outro pavilhão até. Já basta termos perdido o edifício do Jornal do Brasil, também projetado por Mindlin, no Rio.

Um abraço,
Ana Luiza Nobre


(a nota saiu hoje na coluna "Gente Boa", do jornal O Globo).

18
Skate livre / Domingo, os skatistas do Rio voltam à Praça XV. O que eles querem? Praticá-la. Mas não pode.


Então eles saem às 10:00 do Monumento a Estácio de Sá e vem deslizando pelo Aterro até a Praça, onde a programação termina com um campeonato de manobras, às 15:30.


Eles organizaram também um abaixo-assinado, "pela autorização da prática do skate na Praça XV; pelo fim da repressão da Guarda Municipal e Polícia Militar à prática do skate na Praça; pela adequação do mobiliário urbano da Praça XV à prática do skate; pela determinação de horários para a prática do skate, fora dos horários de maior movimentação de pedestres na Praça."


Está tudo aqui: http://ilovexv.com.br/


17
Porto, finalmente /
A notícia que todos esperavam: o resultado do concurso do Porto Olímpico será anunciado dia 28, às 10 da manhã, em cerimônia no IAB.
16

Saara / Discutia o projeto de dois alunos do segundo ano, quando um deles, nitidamente cansado dos meus argumentos, me perguntou: "mas professora, isso não é suficiente?" Os olhos dele, exaustos, diziam: já fiquei horas na prancheta, já resolvi o programa, a planta está desenhada, o que mais você quer de mim? Fiquei meio sem fala, porque a verdade é que quero muito mesmo. Mas esse muito pode bem ser quase nada, porque a arquitetura (e a cidade) também se fazem de atos quase insignificantes, mas transformadores.

Então, se ainda posso querer alguma coisa de vocês, meus caros alunos, é que leiam Borges:
"A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara."


("O deserto". in Atlas, Companhia das Letras, 2010. Obrigada, Ciro)




15



Um tempo áureo, dizem, vem por aí.






14

Toscano / Faleceu ontem o arquiteto João Walter Toscano. Recentemente, ao mergulhar sob a Estação da Luz, de volta da Mooca, falei tanto dele. Aquela arquitetura que é puro fluxo me move como poucas.


Voltei querendo lhe telefonar, e marcar a visita tantas vezes adiada ao Pátio da Vila Sonia, recém-inaugurado, e quem sabe ainda à sua casa na Praia dos Arquitetos. Agora não sei o que dizer. Mas as ruas de São Paulo não serão mais as mesmas. Nem os trens, nem as estações, nem eu.


Releio com dificuldade o texto que escrevi para o seu último livro (João Walter Toscano, J.J.Carol, 2007):




"FIRMEZA E FLUIDEZ
Se fosse possível resumir a obra de João Walter Toscano num único projeto, seria inevitável pensar no terminal da Estação da Luz. Em certo sentido, esse parece ser o ponto culminante de um longo processo iniciado duas décadas antes, no Largo 13, com a premiada estação à qual se seguiu a linhagem de projetos urbanos que hoje constitui um dos veios mais fortes da obra de Toscano.

À diferença, no entanto, de seus antecedentes – como a própria Estação Largo 13, o Terminal Princesa Isabel ou a Estação Pêssego – o projeto para a Estação da Luz não tem presença na paisagem de São Paulo. A não ser pela sinalização visual, não se tem notícia do projeto até que se mergulhe sob a gare centenária. Só então a arquitetura de Toscano se apresenta: uma via de comércio banhada por luz zenital, bilheterias, salas de operação, escadas rolantes, plataformas de embarque e desembarque. Uma rede de espaços por onde circula, dia e noite, o fluxo espantoso de passageiros que constitui nada menos que a própria atividade estruturadora do projeto.

O desafio está justamente em confrontar-se com esse transitar coletivo e intermitente que a bem dizer resume o cotidiano metropolitano. E isso implica, claro, uma espécie de raciocínio essencialmente refratário a qualquer ordem estável, além de uma problematização da própria categoria tradicional de espaço. Nesse sentido, a experiência que essa arquitetura produz – projeto por princípio sem exterioridade nem forma – parece encontrar pontos de contato com a definição de “arquitetura líquida” de Ignasi Solá-Morales: “uma arquitetura que substitui a firmeza pela fluidez e a primazia do espaço pela primazia do tempo”
. Mas essa definição só caberia, para Toscano, até certo ponto. Longe de se bater contra o atributo vitruviano, o arquiteto sustenta a tensão entre firmeza e fluidez, e não se apressa em resolvê-la. "

Que o Rio guarde pelo menos um dos últimos projetos de Toscano, apresentado no concurso para a biblioteca da PUC.
13


Sábado / Zanzando pelo centro da cidade, viro na Rua do Ouvidor e entro na Livraria Folha Seca, o melhor endereço para quem procura livros sobre o Rio. E não é que saio com um autografado por Cássio Loredano? Comemoro com um café na Confeitaria Cavé, na Uruguaiana, onde depois das três um doce vale por dois. Porque hoje é sábado. E por que não?














12


Arteforum / Chegando da Mooca, vou rever com outros olhos o filme "Spiral Jetty" (1970, cor, 32 min), de Robert Smithson, que passa domingo no Palácio Universitário da Praia Vermelha (UFRJ), seguido de palestra de Nelson Brissac Peixoto. Brissac é autor de livro recém-lançado sobre o artista norte-americano e curador do projeto ArteCidade, que já teve quatro edições em São Paulo e entre agosto e setembro deste ano se desdobra num "canteiro de operações" na Mooca, que está sendo concebido em parceria com José Resende (e acompanhado por um grupo de professores e alunos dos Cursos de Arquitetura e Cinema da PUC-Rio). Domingo, dia 5, às 17:30, no Teatro de Arena Carvalho Netto, dentro do Arteforum. E a programação completa do evento (organizado por Beatriz Resende e Denilson Lopes) está aqui: http://www.forum.ufrj.br/index/040511.pdf).
11
Lucio Costa /
Sexta, dia 3, tem lançamento do livro "Lucio Costa - Arquiteto", que reúne os trabalhos apresentados no seminário homônimo realizado em Brasília no ano passado, sob a coordenação de Fares El-Dahdah. Há textos de Carlos Eduardo Comas, Guilherme Wisnik, Eduardo Rosetti, Andrey Schlee, Lauro Cavalcanti e outros.


Meu texto trata da relação entre Lucio Costa e Max Bill. E tenho orgulho de dizer que o evento marca também os 11 anos da Casa de Lucio Costa, completados no último dia 13. No Espaço Tom Jobim, que fica dentro do Jardim Botânico, às 19 horas.
10
Porto Maravilha / Não pude ir ao seminário sobre o Porto Maravilha no IHGB, e lamentei-me por isso a semana toda. Mas agora encontrei no site da advogada e vereadora Sonia Rabello um bom resumo das discussões: http://www.soniarabello.com.br/index.php?param=1&origem=empauta_materias.php&msg1=288

Pelo que se vê, surgiram vários argumentos contra a derrubada da Perimetral, e não poucas críticas à ausência de um projeto urbanístico para a região, minimamente condizente com a aceleração da negociação das CEPACs (certificados que permitirão a comercialização de 4 milhões de metros quadrados, além do já permitido pela legislação).

A propósito, ver também:


9

Foster in Rio / Neste final de semana esteve por aqui o arquiteto britânico Norman Foster. Pelo que sei, ele já tinha participado do concurso da Marina da Glória, mas foi sua primeira vinda ao Rio (de qualquer modo, se ele veio antes, nunca apareceu publicamente.) Ora, considerando o prestígio internacional de Foster, e as grandes transformações urbanas prometidas para a cidade, era de se esperar que ele fizesse uma palestra divulgada com antecedência, num auditório amplo e aberto, que certamente teria transbordado de arquitetos e estudantes. Mas tudo o que houve foi uma conversa presenciada por poucos num dos salões do Palácio da Cidade, sede do poder municipal, com o prefeito Eduardo Paes e o artista plástico Vik Muniz.

A conversa foi conduzida pelo curador suiço Hans Ulrich Obrist como evento inaugural da MAP/Mostra de Arte Pública que deve acontecer no Rio em agosto, organizada por Vik Muniz. Já se confirmou para então também a presença do arquiteto Rem Koolhaas, que deverá participar de uma maratona de entrevistas conduzida por Olbrist com dezenas de convidados brasileiros e estrangeiros. É uma ótima notícia, sem dúvida. Por isso mesmo, espera-se que as próximas entrevistas percam o caráter palaciano dado à entrevista de Foster, ao final de contas nada condizente com o próprio título da mostra.


(A foto acima foi extraída do site da prefeitura, onde há mais informações sobre a entrevista: http://www.rio.rj.gov.br/web/guest/exibeconteudo;jsessionid=27890501E226365ED1BB7D88FBDE8DA4.liferay-inst3?article-id=1790630)


8

Berlim / A primeira vez que estive em Berlim foi em 1994. Cinco anos depois da queda do Muro a cidade era um canteiro de obras só, e nada me marcou mais do que a imagem dos inúmeros braços metálicos que se moviam lentamente por todos os lados, colossais e meio fantasmagóricos. A memória me veio hoje quando pisei no centro da cidade. Confesso que ainda não sei muito sobre a obra que está crescendo ali na Primeiro de Março, junto ao Tribunal. Mas o fato é que antes de atravessar a rua senti um estranho frio na espinha. De repente, aquela imagem - tão contrastante com a impassibilidade do Pão de Açúcar ao fundo - resumiu pra mim o processo de transformações urbanas que se acelera aqui, e o misto de potência e ameaça que o Rio é hoje. E então lembrei também do comentário que ouvi do Pedro Moreira, anos depois da minha primeira passagem por Berlim, enquanto caminhávamos pela Friedrischstrasse: "dizem que esta é a cidade onde os melhores arquitetos contemporâneos fizeram as suas piores obras". Novo calafrio.
7

Parque Olímpico / Foi divulgado o júri do concurso: Gabriel Durand-Hollis, EUA - arquiteto/urbanista representante da UIA; Nuno Portas, Portugal - arquiteto/urbanista representante do IAB; Luis Millet, Espanha - arquiteto/urbanista representante do IAB; John Baker, Australia - representante do Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016; Sergio Dias, Brasil - engenheiro representante da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro; Jorge Wilheim, Brasil - arquiteto/urbanista representante do Governo Federal e Flávio Ferreira, Brasil - arquiteto/urbanista representante do IAB.


6


Não tem muita explicação. Mas vira e mexe volto aqui, conduzida por todas as coisas do mundo.



5



Cidade Olímpica / "Procurando transformações na cidade?" A Prefeitura acaba de criar um site pra você. Porto Maravilha, Morar Carioca, Transcarioca, Transoeste, Equipamentos Olímpicos, está tudo aqui (ou quase): http://www.cidadeolimpica.com/.
4

Porto: Desafios e Problemas / Até agora, nada do resultado do concurso "Porto Olímpico". O silêncio mantido nesses três meses só aumenta a apreensão com relação ao projeto "Porto Maravilha". Mas abre-se uma oportunidade de discussão com o Seminário "Porto Maravilha. Desafios e Problemas", que acontece segunda e terça no IHGB (Av. Augusto Severo, 8 – 12º andar – Glória):

segunda, dia 16:
9:30h – Palestra de abertura com Carlos Lessa, economista e escritor

14:00h - "O projeto Porto Maravilha e a Cidade do Rio de Janeiro"
com Marcus Monteiro, pesquisador, membro do IHGB e ex-Diretor Geral do Inepac (moderador);
Carlos Alberto Muniz, Vice-Prefeito do Rio de Janeiro; Marcos Poggi, especialista em Economia Rodoviária; José Conde Caldas, arquiteto e presidente da Ademi e Luiz Fernando Janot, arquiteto e urbanista, professor da FAU-UFRJ.

terça, dia 17:
9:30h - "As expectativas suscitadas com o projeto Porto Maravilha"
com Roberto Anderson Magalhães, arquiteto e urbanista (moderador); Carlos Machado, presidente do bloco Filhos de Ghandi e líder comunitário local; Maurício Hora, artista e líder comunitário do Morro da Providência; Jorge Bittar, Secretário Municipal de Habitação e Sonia Rabello, professora de Direito e Vereadora.

14:00h - "Modelos e ideais do projeto Porto Maravilha"
com Rachel Coutinho, arquiteta e urbanista, coordenadora do PROURB/UFRJ; Jorge Arraes, Presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro; Sérgio Magalhães, arquiteto e urbanista, presidente do IAB-RJ; Nina Rabha – arquiteta e urbanista

16:00h - "Os impactos e as conseqüências"
com Cecília Herzog, paisagista urbana e presidente da ONG Inverde (moderadora), Paulo Vidal Leite Ribeiro, Coordenador de Conservação e Projetos Especiais da Subsecretaria do Patrimônio Cultural, Intervenção Urbana, Arquitetura e Design; Cristóvão Duarte, arquiteto e urbanista, professor do Prourb e Maria Fernanda Lemos, arquiteta e urbanista, professora da PUC-RJ

O seminário é gratuito. Informações: (21) 3852-0995 / 8457-9560 ou presidencia@ihgb.org.br








3

Um Século de Habitação no Rio / Desde ontem, o jornal O Globo está publicando uma série de reportagens sobre os 100 anos de conjuntos habitacionais no Rio ("Vidas em Blocos", 8.mai, p. 18 e 19 e 9.mai, p.9). A série foi iniciada com a Vila Operária Marechal Hermes, primeiro conjunto realizado pelo governo federal em resposta à demanda por habitação na então capital federal. As matérias, assinadas pelos jornalistas Rafael Galdo e Rogério Daflon, são acompanhadas de um site criado especialmente para este fim, que vem sendo alimentado diariamente com pequenos documentários (com depoimentos de moradores, historiadores, arquitetos) e uma fotogaleria com imagens de arquivo e atuais (como as fotos acima, feitas por Custódio Coimbra no IAPI de Realengo - projetado na década de 1940 pelo arq. Carlos Frederico Ferreira). Imperdível, e ainda vem mais por aí: http://oglobo.globo.com/rio/info/conjuntos-habitacionais/ (e ao longo da semana, no jornal impresso).





















2

Madureira / Então chegamos ao Mercadão. Ele foi reformado depois do incêndio e dizem que perdeu muito do seu interesse. Mas eu gostei dele assim, Beaubourg suburbano-diarreico-tropical. Foram horas num ir e vir entre búzios, obis, atabaques, rebolations, travessas de bolo, cabritos, patos, ervas, raízes, taboadas, cortes de cabelo...e, de fato, nenhum acontecimento, nenhum foco, só o corpo imerso naquela desmedida de sons, cheiros, cores, e as tais linhas de fuga, com tudo se movendo em deslizamento contínuo, por todos os lados, por cima e por baixo, entre ruas, escadas, rampas, viadutos...e depois, o comentário bonito de Guilherme Vaz: "é dessa arquitetura dos seres que nasce a coisa".

Posto 5 / mai 2011

1
Parque Olímpico / Saiu hoje o esperado edital do Concurso internacional para escolha da melhor proposta para o Masterplan do Parque Olímpico Rio 2016.

As inscrições estão abertas de hoje até 20 de junho, e a data limite para recebimento das propostas é 30 de junho.

O júri, no entanto, só será divulgado no próximo dia 15. Por ora, o que se sabe é que será composto por 7 titulares (4 estrangeiros e 3 brasileiros): 1 arquiteto ou urbanista estrangeiro, representante da UIA, 2 arquitetos ou urbanistas estrangeiros representantes do IAB; 1representante estrangeiro do Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016; 1 representante brasileiro da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro; 1 representante brasileiro do Governo Federal; 1 arquiteto ou urbanista brasileiro representante do IAB, além de 3 suplentes.