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Mindlin / A discussão sobre o Pavilhão do Brasil em Veneza, provocada pela infeliz declaração do cineasta Neville d'Almeida, desdobrou-se numa matéria publicada hoje na Folha de S.Paulo.

Aproveito para esclarecer, mais uma vez, que o Pavilhão é assinado por Mindlin em conjunto com Giancarlo Palanti, Walmyr Amaral e Amerigo Nino Marchesin - sendo a equipe composta, portanto, por dois arquitetos italianos (Palanti, como sócio de Mindlin na época, e Marchesin como indicado pela direção da Bienal de Veneza para coordenar os trabalhos na Itália).

Há mais sobre o Pavilhão - inclusive a proposta descartada de um edifício-ponte, muito semelhante ao projeto de Sergio Bernardes para o Pavilhão da CSN no Parque do Ibirapuera - na dissertação de Aline Coelho Sanches ("A obra e a trajetória do arquiteto Giancarlo Palanti. Itália e Brasil", USP-S.Carlos, 2004), que pode ser acessada aqui: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/18/18131/tde-24062008-100259/pt-br.php


Já sobre a reforma do edifício do Jornal do Brasil, veja-se o artigo de Roberto Segre: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/09.026/1787







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Veneza / A nota saiu hoje na mesma coluna "Gente Boa", do jornal O Globo. E as fotos são de Abilio Guerra, a quem agradeço.
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Bienal de Veneza /

Caro Neville D'Almeida,

como eu lhe respeito, me sinto na obrigação de lhe dizer, um pouco constrangida, que o pavilhão do Brasil em Veneza é projeto de um dos maiores arquitetos brasileiros do séc XX: Henrique Mindlin (junto com Giancarlo Palanti, Walmyr Amaral e Nino Marchesin). É verdade que o pavilhão, projetado entre o final da década de 1950 e início da década de 1960, está em estado deplorável. Mas por que não cuidamos de recuperá-lo, devolvendo-lhe a sua dignidade? Seria também uma bela homenagem a Mindlin, cujo centenário de nascimento se celebra justamente este ano.

No mais, já pensou se todos os edifícios que estão em mau estado de conservação em Veneza fossem derrubados? E se fosse esse o caso, deveríamos entregar a tarefa de construir um pavilhão "ao nível da grande arte brasileira" a uma empreiteira, como você propõe? Não seria o caso de fazer um concurso público, convocar os melhores arquitetos brasileiros, ou quem sabe entregar o projeto a Paulo Mendes da Rocha, simplesmente?

Caro Neville, desculpe o meu tom assim um pouco aflito, mas por último quero lhe dizer também que em arquitetura, como em arte, tamanho nunca foi documento. Se o espaço expositivo é insuficiente, que se projete uma extensão, um anexo, outro pavilhão até. Já basta termos perdido o edifício do Jornal do Brasil, também projetado por Mindlin, no Rio.

Um abraço,
Ana Luiza Nobre


(a nota saiu hoje na coluna "Gente Boa", do jornal O Globo).

Posto 2 / fev 09












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É preciso que se diga: o Rio está em ruínas. Não me refiro às ocupações irregulares que cobrem as encostas e avançam pela Mata Atlântica, ao violento processo de desindustrialização que flagela os subúrbios, nem ao completo estado de abandono em que se encontram as ruas ou praças desta cidade (aliás, com exceção do programa “Rio Cidade”, implantado - com erros e acertos - por nosso prefeito-arquiteto Luiz Paulo Conde no começo dos anos 90, não consigo me lembrar de outra iniciativa abrangente que tenha olhado para o chão da cidade).

Mas a verdade é que desde que o Rio perdeu a condição de capital federal para Brasília, os investimentos foram escasseando, as indústrias migrando, e as pranchetas foram ficando vazias de bons projetos. Alguns já chegam a admitir que o conjunto de obras mais importante desde então foi realizado pelo udenista Carlos Lacerda, primeiro governador do Estado da Guanabara (1961-65): o Parque do Flamengo, o Túnel Rebouças, a adutora do Guandu...

Hoje, para onde quer que se olhe, o que se vê é abandono. Todos os edifícios de Jorge Moreira e equipe na Ilha do Fundão foram tragados pelo desamparo contra o qual lutam as universidades federais. Um dos edifícios mais espetaculares do pós-segunda guerra - o Pavilhão de São Cristóvão, projeto de Sergio Bernardes, não voltou a ganhar cobertura desde que os cabos de aço que a mantinham em suspenso perderam a tração e foram consumidos pelo descaso e pelo fogo (ao qual veio se somar agora a insensível ocupação de seu interior). E o edifício-sede do Jornal do Brasil, de Henrique Mindlin e equipe, foi destruído pelo vandalismo (conforme reportado recentemente por Roberto Segre, que de quando em quando deve se perguntar se não está mesmo em Cuba, afinal).

Como se isso não bastasse, perdemos nos últimos anos pelo menos duas das melhores casas de Niemeyer (uma em Botafogo, outra na Fonte da Saudade). Sem que muitos se dessem conta, foi abaixo recentemente uma escola exemplar de Índio da Costa (cuja demolição foi registrada por Otavio Leonidio), e também na Barra vai sumindo lentamente o belo campanário da Union Church, que parecia estar lá a nos lembrar da qualidade que já teve a arquitetura de Paulo Casé. Até a
arquitetura bancária carioca, que daria um bom objeto de estudo, teve algumas de suas melhores agências descaracterizadas nos últimos anos: a agência do Banco Boavista de Pontual Associados, que chamava atenção por suas cores vibrantes e instalações aparentes, tornou-se irreconhecível sob a indefensável pintura rósea que hoje recobre também quase todas as unidades do Itaú, raros exemplares da escola paulista por aqui (como se não bastasse a “atualização” da identidade visual do banco, que jogou por terra o design de Alexandre Wollner).

Tudo isso dói. Mas o pior é que cada vez mais vejo, no estado de abandono destes edifícios, a atual condição do meio de arquitetura local.