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Aluísio Carvão / Muros são elementos urbanos fundamentais. No Rio, tenho meus preferidos: o muro do Jockey Clube, no Jardim Botânico, é um deles. Passo freqüentemente de carro ou ônibus por ali, e muitas vezes o forte colorido dos seus grafites me faz esquecer as imponentes palmeiras reais, do outro lado da rua. Outro muro que pertence ao meu cotidiano fica na rua Mário Ribeiro (Lagoa-Barra), no limite do terreno do 23º Batalhão da Polícia Militar. É um painel de azulejos concebido especialmente para o local por Aluísio Carvão, a convite da Prefeitura, nos anos 90. O painel tem cerca de 100 metros de comprimento e, curiosamente, nenhuma pichação, embora esteja ali há mais de 10 anos. Nesse tempo, não me lembro de ter flagrado ali nenhuma pichação, cartaz ou publicidade. Só o que o tem ameaçado é o descaso do poder público: faltam vários azulejos, outros foram trocados por remendos grosseiros... Agora me dizem que ele está em vias de ser retirado dali, em função de um projeto que está sendo gestado por Jaime Lerner para abrigar o Museu da Bossa-Nova no terreno. Não chego a defender o seu tombamento, como sugerem alguns. Mas me solidarizo com o movimento em defesa da sua manutenção, encabeçado por Mario Fraga e apoiado por vários artistas plásticos (Eduardo Coimbra, Umberto Costa Barros e outros). Também acrescento a sugestão aos responsáveis pelo projeto do Museu que considerem o muro como algo a ser incorporado ao projeto – o belo projeto de Renzo Piano para a Fundação Beyeler, na Suiça, pode servir como referência.
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O fim da arquitetura carioca / Não se falou noutra coisa a semana toda. A foto do trio formado pelo prefeito, governador e presidente – todos sorridentes e portando quepes de almirante - resumiu a confiança que cerca o projeto “Porto Maravilha”, lançado oficialmente pela prefeitura na última terça-feira. Pela proposta, a área portuária do Rio de Janeiro vai passar por uma reforma completa nos próximos cinco ou seis anos, que inclui amplas intervenções urbanísticas e a construção de vários equipamentos comerciais e culturais, além de moradias. O lote de obras compreende a demolição de parte da av. Perimetral (entre o Mosteiro de São Bento e a Rodoviária) e sua substituição por uma via interna (paralela à av. Rodrigues Alves), a "urbanização" da Praça Mauá e do Pier Mauá e a construção de três novos piers. Deverão também ser construídas cerca de 500 unidades habitacionais (com a recuperação de imóveis antigos na região portuária, através do programa Novas Alternativas), uma garagem subterrânea (sob a Praça Mauá, com capacidade para até mil veículos) e equipamentos de cultura e entretenimento (a pinacoteca do Estado no palacete D. João VI, na Praça Mauá, e o Museu do Amanhã, nos armazéns 5 e 6 do cais). Na esteira do projeto, surgiu até um complexo de salas de escritórios e hotel a la Dubai, a ser construído na av. Rodrigues Alves, em frente aos armazéns 4 e 5. Tudo isso, claro, depende de mudanças na legislação, que terão que ser aprovadas agora pela Câmara dos Vereadores, já que a área atualmente é definida como industrial.

Em meio ao farto material de divulgação, não foi anunciado nenhum concurso público de projetos. Tampouco apareceu qualquer nome de arquiteto ou urbanista. Todas as imagens divulgadas têm mostrado projetos pífios, sem nenhuma qualidade arquitetônica ou urbanística – a começar pelo Pier Mauá, que pelo jeito vai se transformar numa pracinha de interior, com direito a quiosques, chafarizes e até um "arco triunfal". A degradação da área portuária carioca é um fato. Mas isso não pode justificar a realização de projetos sem nenhuma qualidade arquitetônica ou urbanística, feitos sabe-se lá por quem ou como. Somado aos projetos para as Olimpíadas, a Copa do Mundo e às novas instalações da Petrobrás na Cidade Universitária, os projetos para a zona portuária vão definir uma transformação profunda do Rio de Janeiro nos próximos anos. Isso poderia ser decisivo para retirar a arquitetura carioca do buraco em que está, dando estímulo inclusive a produção mais jovem. Mas se tudo seguir como está – com projetos surgindo a toque de caixa, sem nenhum concurso público à vista, e os arquitetos em total silêncio - será mesmo o fim da arquitetura carioca.


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A quem pertence a Praça? / A Praça XV é o coração urbano do Rio. Mas skate, ali, não pode. A alegação da Guarda Municipal é a de que a prática do skate provoca danos ao patrimônio histórico da Praça. Será ao piso, instalado nos anos 90? À fachada do Paço Imperial, cuja simetria fica prejudicada pela movimentação dos skatistas? Ou à estrutura da Perimetral, que a prefeitura mesma quer demolir? O que pode ser mais estimulante para a cidade do que a presença dessa juventude na Praça, justamente nos horários em que ela permanece cinzenta e deserta? Os skatistas não defendem só a prática do skate na Praça. Eles defendem a Praça.



















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Skate na Praça / O skate está intimamente associado aos espaços urbanos. Rampas, escadas, bancos, marquises, tudo é desafio para quem vive atrás da adrenalina de manobras (e tombos) espetaculares no asfalto. No Rio, os skatistas habitam o Centro desabitado. É um instante de felicidade vê-los cruzando o pilotis do Ministério da Educação ou voando sobre a Praça XV, onde eles costumam se concentrar nos finais de semana. E é aí que eles vão estar, domingo, na versão carioca do GoSkateboardinDay, manifestação criada na Califórnia em 2003 e que ocorre simultaneamente em várias cidades do mundo, sempre no dia 21 de junho, como uma celebração da liberdade associada à prática do skate.

Mas para os skatistas cariocas, a data será mais que isso: eles pleiteam "a chance de um diálogo com a prefeitura" para expor sua proposta de "construção de um múltiplo e versátil ambiente de rua", definido não como um 'skateparque' - projetado para uso exclusivo dos skatistas - mas como "um parque onde possa ser praticado o skate". O que eles querem, simplesmente, é estar na cidade. Vivê-la, a seu modo, superando a sua própria marginalização.

É uma reivindicação a ser ouvida, por parte de uma comunidade que já tem presença na revitalização do Centro.
(ver o vídeo "Em cartaz", na coluna à esquerda, e o manifesto XV: http://www.fotolog.com.br/avuatauba).
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E se em vez de helicópteros fossem zeppelins? Este sobrevoou a cidade na década de 30.


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Helicópteros / Duvido que alguma cidade tenha mais helicópteros que o Rio. Pelo que sei, São Paulo tem hoje cerca de 600 em operação, mais ou menos o dobro de Nova York. Mas aqui, tenho certeza, eles são centenas de milhares. A todo instante eles passam zumbindo, para um lado e para o outro, acima da minha cabeça: são passeios turísticos, salvamentos de banhistas na praia, combates a incêndios florestais, transportes de executivos, operações policiais e até resgates de corpos tombados durante confrontos com traficantes em favelas - cena brutal e agora cotidiana no Rio. A verdade é que o despudor dos helicópteros cariocas não assombra mais ninguém. Talvez às crianças menores, que mal ouvem um ruído mais forte e já olham aterrorizadas para o céu. Não, na minha infância, helicóptero era sinônimo de Papai Noel. Ou podia ser também que levasse o Rei, cantarolando, num vôo fabuloso sobre a cidade, capaz até de atravessar um túnel.


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Segurança pública / Pensava vagamente no avião desaparecido – “a máquina contra o homem”, diz a manchete do Jornal do Brasil – quando me deparei com a mala – preta, inerte e sem identificação, esquecida sobre a calçada. Algo nela me fascinou: havia qualquer coisa escapando do seu interior, o que tornava seu abandono ainda mais comovente. Se estivéssemos, ela e eu, em Londres ou Paris, certamente ela me ameaçaria. Aqui, não. Apenas segui em frente, como todos os outros. No dia seguinte ela continuava lá, e eu tive a sensação passageira de viver numa cidade segura.

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Surpreendente dádiva
Lucio Costa

“Como resultado de uma feliz conjugação de circunstâncias, "sans en avoir l'air" - como diria Marques dos Santos, antigo diretor do Museu Imperial de Petrópolis - a administração do Estado do Rio de Janeiro vai presentear a cidade com novas perspectivas urbanas que darão o devido destaque a mais quatro preciosos testemunhos do nosso passado colonial.

1º - A necessidade de nova articulação viária por causa do próximo bloqueio da rua Uruguaiana pelas obras do Metrô acelerou a demolição dos prédios remanescentes na área da Lapa, liberando assim, de ponta a ponta, o aqueduto da Carioca, os Arcos, como são conhecidos – monumento cujo patrono no IPHAN é José de Sousa Reis - o que levou à limitação do gabarito na encosta do morro a fim de incorporar para sempre ao logradouro a serena presença do convento de Santa Tereza.

2º - A feliz deliberação de deixar livre o triângulo contido entre a rua S. José e o edifício De Paoli, criou, com a praça também triangular fronteira ao BEG, novo eixo visual urbano, perpendicular à Avenida Rio Branco, que terá como remate contra o sol poente a extensa e rica silhueta do convento franciscano e respectiva ordem terceira. Esse conjunto será também valorizado pelo desafogo do Largo da Carioca, resultante igualmente das obras do Metrô, e pela iniciativa complementar de liberar a vista lateral, sobre a rua do mesmo nome, com os belos janelões da sacristia.

3º - O prolongamento do Elevado da Perimetral dará ensejo a que se descortinem as fachadas leste e norte do imponente mosteiro de São Bento com o seu famoso botaréu.

4 º - Finalmente, a necessidade da construção de uma passarela na Praça XV levou a administração a restituir aos pedestres o antigo Terreiro do Paço, procurando-se bloquear a vista, tanto do viaduto como do monumento ao General Osório, com um reforço adequado da arborização.

Esse aflorar de perspectivas coloniais que pareciam definitivamente sepultadas pelo indiscriminado adensamento urbano da massa edificada vai ser uma agradável surpresa para
todos os cariocas, pois com esta não contavam. "Il ne faut jamais désespérer".

Lucio Costa, 25/8/74

[Este texto foi entregue por Lucio Costa ao eng. Emilio Ibrahim, então secretário de Obras do Estado, em reunião do Conselho Superior de Planejamento Urbano do Estado da Guanabara - integrado, entre outros, também pelos arquitetos Paulo Santos e Jorge Machado Moreira. O original pertence ao arquivo pessoal do eng. Ibrahim, a quem agradeço. http://emilioibrahim.eng.br/]

Posto 6 / jun 09






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Querem acabar com ela / Junto com a reinvenção dos projetos de revitalização da zona portuária, volta à baila a proposta de demolir a Perimetral (Avenida Presidente Kubitschek), no centro da cidade. O viaduto de cerca de 6 km de extensão, cuja construção foi iniciada heroicamente, em paralelo à construção de Brasília, passou a ser visto, nos últimos anos, como um dos maiores responsáveis pela degradação da frente marítima carioca e já foi objeto de várias propostas de intervenção. Há fortes razões para considerá-lo um fardo a ser eliminado, uma vez que sua construção apartou ainda mais a cidade da água e vitimou parte expressiva da memória carioca, como o Mercado Municipal (do qual hoje só resta o torreão solitário e meio decadente do Albamar). Mas por outro lado, a Perimetral comporta atualmente um fluxo diário de veículos cujo escoamento, na sua ausência, exigirá obras colossais, extremamente penosas e custosas para a cidade.

A Perimetral segue o modelo dos corredores viários elevados construídos no pós-guerra em grandes centros urbanos do mundo todo, visando a criação de alternativas para o crescente tráfego motorizado e particular. Dentro desse modelo, os exemplares mais emblemáticos são, provavelmente, as “expressways” erguidas por Robert Moses em Nova York, que devastaram comunidades inteiras da cidade, nos anos 50, e só foram freadas graças à mobilização comunitária encabeçada por Jane Jacobs na década seguinte.

No caso em questão, no entanto, é preciso levar em conta que, depois da criação do “mergulhão” da Praça XV, na década de 90, uma vida floresceu bem ali, ao abrigo do viaduto, da qual dá testemunho a fervilhante feira de artigos usados onde aos sábados ainda se pode comprar um disco de vinil a dois Reais, um ex-celular a três ou uma máquina de escrever a trinta. E não deixa de ser curioso que as precárias barracas se concentrem exatamente ao longo dos apoios do viaduto, e não, como gostariam muitos bem-intencionados arquitetos, na praça adjacente, que aos sábados resta deserta. Fica evidente que existe uma forte identificação entre o caráter meio marginal da feira e o espaço meio abandonado sob o viaduto, ambos tão próximos de espaços urbanos centrais e ao mesmo tempo tão apartados da cidade à sua volta.

Além do mais, é inegável que, se a Perimetral bloqueou a vista de alguns monumentos notáveis – vários deles tombados, como o chafariz do Mestre Valentim e o Paço Imperial -, ela também acabou presenteando o Rio com novas perspectivas urbanas. E essa "surpreendente dádiva", salvo engano, quem primeiro percebeu foi Lucio Costa.


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Vista para o Pão de Açúcar / Estou cada vez mais convencida de que muitos problemas relativos à baixa qualidade da arquitetura carioca hoje têm relação direta com a legislação urbana da cidade, que além de ser extremamente impositiva, restritiva, e por isso mesmo estúpida, permanece praticamente intocada há décadas. Além das varandas abertas, que tomaram como uma praga a habitação multifamiliar carioca nos últimos três decênios, muitos bairros foram adensados com base na tipologia da torre sobre embasamento destinado a garagem. Tipologia essa que, ignorando as observações feitas por Jane Jacobs ainda na década de 1960, simplesmente decretou o afastamento dos olhos em relação à rua e assim acabou contribuindo decisivamente para o aumento da violência e da insegurança urbana.

Surgiram mesmo situações quase cômicas, como a do edifício ao lado. A uniformidade da fachada, garantida pela repetição das janelas em fita, sugere que todos os pavimentos acima do térreo sejam iguais, com a sala voltada para a frente. Quando olhamos através do vidro do primeiro pavimento, porém, o que encontramos são carros estacionados. É verdade que no Brasil o carro tornou-se um símbolo de status tão inquestionável que a incorporação ao projeto de um abrigo capaz de proteger-lhe das intempéries e do vandalismo costuma ser facilmente justificável. Mas como justificar o fato de que este abrigo, além de ocupar o espaço supostamente mais nobre do edifício – do ponto de vista da sua relação com o espaço público -, receba o mesmo tratamento, o mesmo material, e até as mesmas esquadrias dos apartamentos? No caso, há ainda um detalhe: o estacionamento volta-se para o Parque do Flamengo, um dos parques urbanos mais extraordinários do mundo, projetado por Affonso Eduardo Reidy e Roberto Burle Marx. E tem bem à sua frente, pouco além do Parque e da Baía, nada senão o Pão de Açúcar.
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Conheci ontem, finalmente, a Galeria Progetti. É uma delicada intervenção do arquiteto Pedro Rivera num dos estreitos sobrados da Travessa do Comércio, que encontrei suavemente banhado pela luz do outono, com trabalhos de Giancarlo Neri e Marcos Chaves.





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Mar Morto / Será que a positividade com que continuamos a encarar a arquitetura é realmente benéfica para a sua prática? A interrogação me levou a propor aos alunos hoje uma discussão - propositalmente desviante em relação ao nosso percurso até aqui - em torno da relação entre Richard Serra, Robert Smithson e o contexto nova-iorquino (conduzida pela Martha Telles, que acaba de concluir tese sobre o tema). À perplexidade mais ou menos generalizada diante do Hotel Palenque (palestra de Smtihson aos alunos de arquitetura da Universidade de Utah, em 1972) seguiu-se então uma animada discussão sobre a ausência de um ambiente de discussão em arquitetura hoje no Rio, que me obrigou a reconhecer o papel limitado da minha própria ação, dentro da escola, em face dos inúmeros problemas que assolam atualmente a prática carioca da arquitetura, como a falta de referências intelectuais e projetuais contemporâneas, o descolamento entre arte e arquitetura, a escassez de concursos públicos e a inexistência de um debate capaz de ganhar a esfera pública, que se traduz no assombroso silêncio profissional diante da falta de foco das operações cada vez mais midiáticas da prefeitura carioca.

A situação é quase terminal. E no entanto não encontro nenhum sinal de mal-estar capaz de abalar a auto-confiança que segue escorando a disciplina da arquitetura entre nós, por mais que ela se mostre cada dia mais isolada e desimportante. Preferimos seguir mecanicamente projetando e cultuando monumentos do que aceitar o desafio de Rem Koolhaas, para livrar-nos da eternidade historicamente associada à arquitetura e enfrentar os riscos que envolvem a sua prática hoje.






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Selva Urbana / Em que outra metrópole do séc. XXI uma cobra de 3 metros de comprimento pode ser encontrada serenamente atravessando a garagem de um edifício residencial? E em que outra metrópole do séc. XXI há bombeiros preparados e equipados para capturá-la – viva - em poucos minutos, sem causar pânico entre os moradores nem sacrificar o animal? A cena aconteceu domingo passado, num condomínio de 54 apartamentos logo atrás do shopping da Gávea (um dos mais centrais do Rio). Em seguida, a jibóia foi devolvida à floresta e os moradores voltaram para seus afazeres e aflições cotidianas, em seu mundo de cimento e asfalto onde todos os dias parecem iguais.



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Em cartaz / Nenhuma cidade está tão associada ao cinema quanto Nova York. Conheço cada esquina dessa cidade por meio dos filmes de Hitchcock, Woody Allen e Spike Lee. As cenas de rua nova-iorquinas se tornaram tão familiares que, na tela, me reconheço muito mais cruzando a Ponte do Brooklyn que a Ponte Rio-Niterói. É que as cidades americanas parecem saídas do cinema, do mesmo modo que as cidades italianas parecem saídas de uma pintura, como observa Baudrillard.
Foi pensando nisso que decidi criar um espaço, na coluna ao lado, destinado a destacar vídeos experimentais sobre o Rio. O filme de estréia (Extra-large n.1) é um dos trabalhos de alunos do Curso de Arquitetura da PUC que será apresentado e discutido no dia 25, às 19 horas, no IAB (Rua do Pinheiro, 10, Flamengo), dentro do programa "Cidade Digital".

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Disque-Choque / O Rio está vivendo um período, no mínimo, curioso. O chamado “Choque de Ordem”, praticado desde janeiro pela recém-criada Secretaria Especial de Ordem Pública, pode ser flagrado cotidianamente nas ruas: carros estão sendo rebocados, construções irregulares demolidas, vendedores ambulantes forçados a se cadastrar. Numa cidade entregue ao mais completo abandono nos últimos anos, é um sinal de mudança cujo componente simbólico convém a um prefeito jovem e ambicioso, como não poderia deixar de ser. Mas a espantosa ausência de um pensamento mais amplo sobre a cidade, e de uma política urbana que o acompanhe, me impedem de comemorar como eu bem gostaria.

Há poucos dias me deparei com mais uma dessas ações na zona sul da cidade. E pela primeira vez, dei-me conta de que a operação necessária para rebocar um único automóvel mobiliza outros tantos veículos, além do reboque propriamente dito, e várias pessoas (entre guardas de trânsito, fiscais, motoristas e operadores do guincho, contei algo em torno de 10 homens). Ora, numa metrópole como o Rio de Janeiro, cuja mobilidade já é tão sacrificada por sua situação geográfica, é de se perguntar se uma tal operação, conforme tem sido conduzida, não tem conseqüências mais negativas que positivas. Penso, por exemplo, no impacto – em termos de poluição do ar, consumo de combustível e congestionamento do sistema viário - causado pelo deslocamento do comboio da prefeitura até o local da ocorrência, o transtorno provocado pela obstrução de uma ou mais vias públicas até que a remoção do veículo infrator se consume (o que pode levar uma hora ou mais) etc. Somo a isso o deslocamento do comboio de volta até os depósitos públicos municipais – localizados em áreas centrais e com funcionamento limitado aos dias úteis, de 9 às 18 horas (ou seja, justamente no período em que há mais veículos circulando pelas ruas da cidade). Mais o deslocamento do próprio proprietário do veículo, que, mesmo esbravejando muito, não tem outra alternativa senão resgatá-lo pessoalmente. Feitas as contas, será que o reboque de um ou dois carros estacionados irregularmente justifica todo esse impacto? Quanto se consome, em termos financeiros e ambientais, a cada operação do gênero? Será que o número de carros rebocados por dia em todo o município (cerca de 20, segundo dados divulgados pela Secretaria de Ordem Pública relativos ao mês de fevereiro de 2009) é alto o suficiente, em termos percentuais, quando se considera o conjunto da frota motorizada do Rio de Janeiro? Não defendo o descumprimento do Código de Trânsito, e muito menos a ocupação irregular do espaço público. Mas o problema, me parece, está na situação crítica desta cidade, cujo desregramento exige muito mais que um “choque”.
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Maravilha de Cidade / É claro que a minha carta não foi publicada. E no dia seguinte, o maior jornal do Rio ainda soltou outra matéria sobre o Hospital, de novo sem mencionar o arquiteto. A quem importa? Talvez aos técnicos da Unesco, que percorrem a cidade-candidata ao título de "Patrimônio Cultural da Humanidade". Só que os "trunfos da candidatura", segundo o mesmo jornal, são o Maracanã, a Bossa-nova e claro, o Carnaval.

Posto 5 / mai 09

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A inauguração do Hospital Sarah-Rio está sendo amplamente noticiada pela imprensa carioca. Mas o nome de Lelé tem sido injustamente omitido. É mais um triste sinal do descaso pela arquitetura no Rio de Janeiro. Segue carta que enviei hoje ao "Globo":

"A inauguração do Hospital Sarah-Rio, destacada na primeira página do jornal "O Globo" de hoje, de fato integra o Rio a uma rede hospitalar reconhecida internacionalmente. Mas não apenas na área da Saúde. Também no campo da Arquitetura a Rede Sarah é hoje referência indiscutível, e isso graças à ação do arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé, autor dos projetos de todas as suas unidades e coordenador do Centro de Tecnologia da Rede Sarah (CTRS), localizado em Salvador. Lelé está entre os maiores arquitetos brasileiros de todos os tempos, e é uma ofensa à própria arquitetura brasileira que seu nome não seja sequer mencionado nas matérias publicadas na imprensa carioca."





























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Boa notícia: o Hospital Sarah-Rio, projetado por Lelé em Jacarepaguá, será inaugurado amanhã. As fotos foram feitas agora à tarde, e estão longe da grandeza da obra.







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OS.2 / Também na Câmara Municipal discute-se nestes dias a introdução do modelo de gestão de determinados serviços públicos – das áreas de educação, saúde, cultura e esporte - por meio das Organizações Sociais, nos moldes da Lei Federal n.9637, de 15.mai.98. O projeto, encaminhado à Câmara pelo prefeito Eduardo Paes em fevereiro, foi discutido em audiência pública realizada ontem. Diante da polêmica que vai se armando, vale lembrar que deve-se à primeira instituição pública não-estatal brasileira - a Associação das Pioneiras Sociais, criada em 1991 – a gestão impecável da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, que se tornou sinônimo da arquitetura exemplar de João Filgueiras Lima. O Rio, aliás, conta com duas unidades da Rede Sarah: o Centro de Reabilitação infantil, aberto em 2002, e o Hospital Sarah-Rio, em vias de ser inaugurado. Ambos situam-se junto à Lagoa de Jacarepaguá, e reafirmam (como se isso ainda fosse preciso) a qualidade verdadeiramente extraordinária – porque fora do comum, rara, admirável – da arquitetura de Lelé.
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OS / Desconfio, por princípio, de todos os movimentos do atual governo do Estado do Rio de Janeiro (haja vista os muros...). Mas também sou favorável a modelos de gestão que envolvam maior participação da sociedade civil, e por isso subscrevi o abaixo-assinado em favor do Projeto de Lei 1975/2009, apresentado à Assembléia Legislativa visando a criação das Organizações Sociais (OS) no Rio [ http://www.petitiononline.com/OSnoRJ/petition.html ]. As OS são instituições civis, sem fins lucrativos, que poderão administrar teatros, cinemas, museus, bibliotecas, escolas de arte e centros culturais da rede estadual. Há quem veja aí uma ameaça de privatização desses espaços, mas não posso deixar de considerar a penúria em que se encontram. Em vários outros Estados (São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Espírito Santo, Bahia, Pará, Ceará, Pernambuco, Sergipe, Acre e Maranhão, além do Distrito Federal), leis semelhantes têm viabilizado a gestão de instituições e projetos de qualidade como o IMPA/ Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Porto Digital do Recife, a Estação das Docas de Belém do Pará, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Sala São Paulo, a Pinactoeca do Estado e até hospitais da rede estadual paulista. É uma lista considerável.