Dos anos vinte aos anos setenta do século passado prevaleceu entre os urbanistas o entendimento de que as cidades existentes eram todas erradas e consequentemente, deveriam ser gradativamente demolidas e reconstruídas a partir do zero, seguindo as prescrições da época do que seria uma boa cidade: um grande gramado sobre o qual pairavam, sobre pilotis, edifícios altos, brancos como a neve...
O projeto de Le Corbusier para o centro de Paris, o Plan Voisin de 1925, felizmente não construído, é um dos primeiros exemplos desta atitude. A segunda melhor solução era abandonar a cidade existente ao léu e construir expansões gigantescas com os edifícios altos sobre o verde. O projeto de Lucio Costa para Barra da Tijuca, dos anos 60, é um bom exemplo desta atitude.
No mundo inteiro “a cidade alta no parque” mostrou-se desagregadora, sem lugares de convívio, favorecendo a exclusão e não a inclusão, a alienação e a delinqüência e não a cultura, a monotonia e não a diversidade.
Além disso, era cara de se construir e difícil de se manter.
As cidades dos Estados Unidos, que tem recursos para corrigir grandes erros, tem demolidos seus trechos de “cidade alta no parque”. A partir dos anos 70, em todo o mundo, este paradigma foi refutado.
Descobre-se que a cidade existente, embora cheia de problemas, tem suas qualidades e suas grandezas e os urbanistas voltam-se para ela e, delicadamente, a reformam, a restauram, dão-lhe mais vida. Retoma-se a pequena escala.
São exemplos no Rio dessa atitude frente às cidades, a de intervenção de pequena escala: o Corredor Cultural de Augusto Ivan e seus companheiros; a melhoria das ruas tradicionais que no Rio se denominaram Projetos Rio-Cidade, desencadeados por Luiz Paulo Conde; as melhorias em áreas carentes aqui designadas Projetos Favela-Bairro, liderados por Sergio Magalhães; a adaptação de edifícios antigos como o Centro Cultural Banco do Brasil e a sede dos Correios; o retrofit de diversos grandes edifícios de escritório no centro da cidade como a antiga sede da Sul América na Rua da Quitanda, de Fernando Monte e da antiga sede da Esso na Avenida Presidente Wilson de Davino Pontual e Paulo Pires; o cuidadoso restauro de diversos palácios, como o da antiga sede da Casa da Moeda para o Arquivo Nacional de Alfredo Britto, o último sendo o restauro do Palácio Imperial na Quinta da Boa Vista. Esses exemplos indicam o muito que se pode fazer seguindo essa vertente predominante do urbanismo e da arquitetura contemporânea.
Não é que agora, em 2009, o projeto “Porto Maravilha” da Prefeitura volta atrás 40 anos e propõe para a área do Porto um plano que leva à destruição da maioria do volume edificado na área e sua reposição por edifícios e altos?
Faz isso ao legislar, quarteirão a quarteirão, a construção de edifícios enormes, os maiores podendo ter 12 vezes a área do terreno, e com altura de até 50 andares. Com esta legislação esses terrenos serão vendidos em hasta pública para a iniciativa privada.
Alem de destruir a maior parte das construções existentes no Porto, os novos edifícios escondem o perfil dos pequenos morros que separam o Porto da Avenida Presidente Vargas e, mais grave, a bela paisagem da grande cordilheira da qual o Corcovado é o elemento mais importante.
Quando viemos da Zona Norte, do interior ou do Galeão, nos sentimos no coração do Rio quando, junto ao Gasômetro, contemplamos de perto o Cristo e o perfil de toda a sua cordilheira. Com o “Porto Maravilha” esta experiência visual maravilhosa estará perdida para sempre.
Legislar muito denso e muito alto tem um outro grave inconveniente: atrasa a consolidação da área. Não há economia urbana suficiente para construir os edifícios grandes de pronto. Terá que haver especulação os terrenos ficarão desocupados por décadas e enquanto isso o Porto continuará vazio.
O projeto deveria enfatizar a reforma, o retrofit, o restauro do existente. Com um olhar contemporâneo lá se vê uma infinidade de oportunidades para este tipo de aproveitamento. O Porto se consolidaria rapidamente e ficaria, já agora, muito mais interessante e vivo. Os melhores exemplos de projetos bem sucedidos hoje são os que enfatizam a preservação e não a demolição e construção de edifícios altos, principalmente nas áreas portuárias.
O primeiro projeto de renovação portuária, no Haymarket em Boston e o Porto Madero em Buenos Aires são disso um bom precedente. No Rio já há alguns exemplos de projetos desse tipo: o pioneiro uso de armazéns do Porto para sede de uma empresa, a Xerox, um retrofit feito nos anos 70 por Pontual Associados; o Parque das Ruínas em Santa Teresa, elegante conjunção entre o velho e o novo, do impecável veterano Ernani Freire; o Museu do Telefone no Flamengo, que preserva seu exterior e revoluciona os seus interiores, do jovem arquiteto Gustavo Martins e seus sócios; a Galeria Progetti na Travessa do Comércio, que cria, com maestria, um pequeno espaço em planta mas altíssimo, do jovem arquiteto Pedro Rivera, são pequenas amostras do que pode ser feito em grande no Porto.
O Porto necessita do talento desses e de outros arquitetos cariocas. Tanto dos muito jovens já com experiência, quanto dos poucos veteranos que compreendem a contemporaneidade.
Com a corretíssima transferência dos principais equipamentos olímpicos para a área do porto como a Vila Olímpica, o “Porto Maravilha” terá que ser reformulado. É um bom momento para refazê-lo leve, coerente com a contemporaneidade e não como um pesado Brucutu do meio do século passado.
Para induzir o retrofit basta que o volume legislado seja igual ao volume já construído e preservados os alinhamentos de fachada existentes. Pode e deve haver exceções, como torres finas e altas, mas de forma que não interfiram na bela paisagem. O Urbanismo é tridimensional: é necessário que se façam planos de massa e simulações tridimensionais do novo e do todo. Em seguida vendem-se os imóveis em hasta pública. Nisso o “Porto Maravilha” está certo: a venda dos imóveis e a conseqüente e indispensável participação da iniciativa privada."

Que venham as Olimpíadas, então. E com elas a reativação econômica da cidade, a reversão do esvaziamento do centro, a despoluição da Baía de Guanabara, o freio no desmatamento da Mata Atlântica e no crescimento das favelas, o equacionamento dos problemas de transporte, lixo e violência urbana. Mas também a valorização e a recuperação da arquitetura e do urbanismo de qualidade. Não pode ser muito esperar que as Olimpíadas deixem como legado, afinal, também a revitalização da arquitetura carioca, que já foi tão vigorosa – com Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Sergio Bernardes e muitos outros - mas hoje encontra-se em estado terminal.
Posto 10 / out 09


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Porto urgente 8 / Enfim está disponível na Internet o PowerPoint sobre a revitalização da zona portuária, apresentado recentemente em audiências públicas pelos técnicos da Prefeitura:
O material foi disponibilizado dentro do excelente site do Plano Diretor que acaba de ser criado pela Câmara Municipal, onde é possível acessar documentos, seguir a tramitação e manter-se informado sobre o calendário das audiências públicas relativas ao Plano Diretor:
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Porto urgente 3 / Eis aí as principais imagens relativas à fase 2 do projeto de revitalização da zona portuária. Segundo os técnicos do IPP, essas imagens - bem como dados mais detalhados sobre o projeto - só estarão disponíveis publicamente depois que a legislação em tramitação na Câmara municipal tiver sido aprovada.
Porto urgente 2 / As imagens não são boas, mas valem pelo conteúdo. Afinal, são os primeiros slides da apresentação do Projeto Porto Maravilha na Câmara dos vereadores ontem, e se referem à fase 1 do projeto, já em andamento. Como se pode ver, o projeto inclui várias edificações novas e/ou reformadas, como o Aquario (projeto do arq. Alcides Horácio Azevedo, bancado pela iniciativa privada), a Escola Técnica de Audiovisual e Restauro (em galpões ferroviários existentes), o Museu do Amanhã (nos armazéns 5 e 6), a Pinacoteca (no edifício D.João VI) - os dois últimos, em parceria com a Fundação Roberto Marinho. Também já foi aprovado o projeto da nova sede do Banco Central, um "green building" ao lado da Cidade do Samba. (sobre a fase 1, ver também http://www.rio.rj.gov.br/ipp/03_Fase1.html). A segunda sequência de slides - relativa à fase 2, que depende da aprovação de três projetos de lei em tramitação na Câmara - estará aqui em breve.

Posto 9 / set 09
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Em meados do semestre passado, eles pegaram um ônibus para São Paulo, de onde voltaram com três ótimas entrevistas (João Walter Toscano, Vinícius Andrade e Marcelo Morettin; Lua e Pedro Nitsche), as quais, somadas e editadas, deram início ao site ENTRE, lançado sem muito alarde em junho.
Agora o ENTRE põe na rede a primeira entrevista com arquitetos cariocas. Otavio Leonídio e João Pedro Backheuser (BLAC Arquitetura e Cidade) falam bastante do Rio de Janeiro, e com muita franqueza: questionam a Vila do Pan (do atual Secretário Municipal de Urbanismo, eng. Sergio Dias) e o Museu da Bossa Nova (do ex-prefeito de Curitiba, arq. Jaime Lerner), por exemplo, além de vários outros projetos recentemente executados ou em vias de se concretizar na cidade. A produção atual dos arquitetos cariocas, aliás, é definida como “uma desgraça”, provocada tanto pelo vácuo do ensino quanto pela postura de instituições como o IAB. E os termos dirigidos aos urbanistas cariocas não são menos eloqüentes. A discussão está aberta: www.entre.arq.br
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Essa é a pauta do encontro que acontece em breve - só para convidados - na Galeria Progetti, reunindo artistas, arquitetos e designers. No encontro, Mark Wigley, diretor da Escola de Arquitetura da Columbia University, de Nova York, deverá apresentar também os planos da escola para abrir uma base de trabalho e pesquisa no Brasil - possivelmente no Rio - já chamada de "Studio-X".
Na verdade, o Rio já tem sido objeto de alguns trabalhos realizados pelos alunos de Columbia, cujos projetos para o Morro da Conceição poderão ser vistos também em breve na exposição "Rio Faíscas", que abre dia 31 (segunda-feira) no Espaço Maria Teresa Vieira (Rua da Carioca, 85).


Mais do MIS / Está no ar a segunda e última parte do relato de Vitor Garcez sobre as apresentações dos projetos do concurso do MIS: www.riodjanira.blogspot.com
High Line / Muitos cariocas estão se perguntando quem são, afinal, os autores do projeto vencedor do concurso do MIS. Estão aí, então, algumas imagens do High Line, parque público inaugurado há poucas semanas no West Side de Manhattan, que é também uma das realizações mais recentes do escritório nova-iorquino Diller Scofidio + Renfro.

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Lucio Costa, presente / O Rio também tem notícias boas, e como: acaba de ser disponibilizado no site da Casa de Lucio Costa o acervo do arquiteto. É um conjunto riquíssimo de documentos, reunindo cartas, pareceres, desenhos e fotos, muitos dos quais totalmente inéditos até hoje, que foi organizado e digitalizado pacientemente nos últimos anos pela Casa de Lucio Costa, com patrocínio da Petrobrás.
O novo MIS será – além de um centro de memória, conservação e estudos já consagrado – um Museu de fato. Seu acervo será exibido de forma moderna, fazendo uso de novas mídias e da mais alta tecnologia, e interativa, com a intenção de encantar seus visitantes.
Os critérios utilizados para avaliar os projetos são: inovação e originalidade tecnológica e estética; adequação física e estética ao local; atendimento aos parâmetros estabelecidos no programa funcional; exequibilidade do projeto e atendimento aos parâmetros de sustentabilidade, tais como eficiência energética e do uso de água, e acessibilidade universal, ou seja, facilidade de acesso para todos os usuários e portadores de deficiência."
Os grifos são meus, claro.






