Posto 4 / abr 2011




http://vimeo.com/17980023
http://vimeo.com/18961188




Alfredo gentilmente me mandou as fotos, junto com um relato do passeio: "no Pedregulho (Rogers) percorreu o Bloco A, a Escola e entrou em apartamento. Visitou tudo com vivo interesse, excelente humor, debateu detalhes com base no livro do Nabil (Bonduki), e ao final, profundamente agradecido, comentou o grande prazer de ver e confirmar pessoalmente 'uma das mais notáveis realizações arquitetônicas do século XX; pelas soluções espaciais tão criativas, detalhes depurados, beleza e significado social'. No Pavão, subimos no novo elevador e depois atravessamos transversalmente toda a favela até a UPP, a Biblioteca e os espaços do Criança-Esperança. Com a maior disposição, (Rogers) indagou, comentou e interagiu com os locais. " O tour terminou com um almoço no Arpoador - de onde voltar pra Londres não deve ser nada fácil.



Deve ser o carnaval (ainda). Ou a dificuldade de acesso (a cidade está longe).
Mas é sábado, é manhã, e seguimos mata adentro.
Na ausência de mapas, ficamos mais atentos aos sinais.
Logo, toda a infância volta: árvore é pra subir, rio é pra atravessar, pedra é pra pular ou sentar.
Assim vamos descobrindo Oiticica, Edu Coimbra, Nuno Ramos, Lygia Pape.
José Resende demora mais. Os cabos de aço romperam, a lâmina de mármore partiu e talvez tenha sido arrastada pela água. Resta a treliça metálica, quase soterrada no fundo do vale. E alguns fragmentos da pedra um dia branca, hoje tomada por musgo. A placa coberta de terra diz que a obra está em recuperação. Espero que esteja mesmo. Mas não deixo de gostar dela assim, em estado de colapso. As margens são instáveis, afinal. E mesmo os açudes beiram o desequilíbrio, eu sei.

Fernando Chacel: Sou muito urbano. Jamais moraria num lugar bucólico, fora da cidade... Creio que não mesmo. Então a cidade dos meus sonhos teria que estar de acordo com o conceito de sustentabilidade, em que a natureza pudesse participar da área urbana de uma maneira efetiva e que essa urbanização fosse feita em cima da capacidade de suporte da natureza. Penso numa cidade equilibrada, harmoniosa, saudável, e para isso tem que haver um intercurso amoroso entre reurbanização, conservação e preservação dos recursos naturais.
AP: Essa cidade já foi projetada? Ela existe?
FC: Não. Talvez alguns focos...
Ana Luiza Nobre: O Central Park, em Nova York, não seria um pouco isso?
FC: O Central Park é um parque dentro de uma cidade. Mas vai além de um parque, do gerenciamento de um recurso natural. Vai além de uma postura ética.
ALN: Como você vê Brasília?
FC: Brasília foi um experimento extraordinário. Para mim, há duas grandes figuras do século XX nas artes do paisagismo, da arquitetura e urbanismo: Oscar Niemeyer e Roberto Burle Marx. As poucas coisas que eles fizeram juntos são muito bonitas. Agora, o paisagismo de Brasília, tirando a obra de Burle Marx, é um grande equívoco. Nunca se trabalhou com a paisagem do cerrado. O grande problema é esse. O crescimento das plantas exóticas no Brasil é muito rápido e muito mais visível do que o cerrado. E isso é complicado, porque no imaginário das pessoas cria um certo imediatismo. As pessoas querem ter uma árvore secular em casa. Mas o grande problema de Brasília em relação à paisagem é que o cerrado tem possibilidades fantásticas. O problema é a dificuldade de aceitação da estética da ecologia.
AP: Você gostaria de morar em Brasília?
FC: Não, a minha experiência de cidade é outra. Mas muitas pessoas gostam de morar lá.
ALN: Lucio Costa dizia que Brasília deveria ter técnica viária e técnica paisagística. A técnica paisagística falhou, então?
FC: Falhou. Nunca foi dado ao Burle Marx, por exemplo, a possibilidade de fazer um parque.
ALN: Na Novacap não havia nenhum paisagista?
FC: Não. Ou tinha, mas, não da estatura do Burle Marx.
AP: Eu moro no Flamengo e uso muito o Parque do Flamengo. E acho o Parque muito interessante como flora, mas uma paisagem vazia como fauna. Acho que o desenho de Burle Marx excluiu a Mata Atlântica, por exemplo, ao trazer aquele exótico...
FC: Mas ainda tem muita coisa de Mata Atlântica ali dentro. Agora, quanto à fauna, realmente, você tem razão. Talvez por falta de nichos florestais, não é? Mas ele é tipicamente um parque urbano.Tem uma coisa que eu acho muito interessante no Parque do Flamengo: ele não concorre com a paisagem extraordinária que tem aqui, mas é digno, muito digno dentro dessa paisagem. Porque era muito difícil fazer alguma coisa nessa paisagem com todos esses ícones.
AP: É um mundo, uma natureza constantemente pressionada, não é? Eu vejo o arquiteto-urbanista ou paisagista desenhando e fazendo suas opções. Ou seja, deixando de lado umas coisas e incorporando outras. Isso significa que o que não está no desenho vai ser extinto?
FC: É. Você tem uma idéia do que vai acontecer, mas não tem uma garantia de que aquilo que está projetando vai acontecer daquela maneira. Tem sempre um desenho paisagístico dentro disso, mas talvez ele não forme um estilo de desejo. Ele é mais um gesto em relação à paisagem do que propriamente uma afirmação sua em relação à paisagem. Talvez caminhe um pouco por aí.
ALN: Como você lida com os problemas de manutenção e preservação do seu projeto? O Parque Dois Irmãos, por exemplo, no Leblon, foi muito violentado pela escultura colocada lá.
FC: Realmente fiz um trabalho muito cuidadoso ali, preocupado com o monumento que é o Morro dos Dois Irmãos. Depois veio aquela escultura... Fiz esse trabalho como contratado da Engenharia Ambiental. A firma ganhou o contrato e começou a ter alguma dificuldade de projetar, então me chamaram. Fiz um estudo e levei-o para a Secretaria de Meio Ambiente, onde o Alfredo Sirkis era secretário. Eu tinha feito uma perspectiva aérea para ele poder ver o parque, aí ele perguntou: - Chacel, o que eu vou poder ver da Delfim Moreira? E eu disse: - Você não vai ver absolutamente nada! Mas o Rio é muito infeliz nessas coisas...O paisagista Luiz Emygdio (de Mello Filho) dizia que nós vamos acabar fazendo do Rio o museu dos erros humanos. "

Folia / Você gosta de Carnaval? Taí uma pergunta para a qual hoje não tenho resposta. Gosto das fantasias, da batida da bateria, de samba no pé. Mas não gosto de nada que é compulsório, e sobretudo não gosto de me sentir refém da festa dos outros. Então o carnaval no Rio, que era uma opção, está se tornando um problema pra mim. Tenho medo de sair de casa pra comprar um pão e não conseguir voltar nunca mais. Um taxista de São Paulo me disse outro dia que tem um pesadelo frequente, em que acorda, pega o carro e não consegue sair da garagem o dia todo por causa do engarrafamento. Pois eu já me imagino, inversamente, com uma bisnaga na mão em plena Marquês de São Vicente, sem conseguir voltar pra casa por causa de algum bloco.
Com isso, o mistério chega ao fim. Mas vamos ter que esperar mais um mês, pelo menos, para saber o resultado do concurso. Enquanto isso, algumas perguntas são inevitáveis: por que o comunicado demorou tanto? E por que então o concurso foi realizado no período já atribulado de final de ano, com prazo apertado, e tão em cima do Morar Carioca? Não teria sido mais adequado esperar um pouco mais para lançá-lo, ou mesmo adiar a entrega dos trabalhos?Posto 03 / mar 11

Noite sem estrelas / A notícia me deixou abalada: "em Brasília, número de estrelas observáveis a olho nu caiu de 2000 para 150 em 20 anos." (Folha de S.Paulo, 20.fev). A causa é a poluição luminosa, causada por iluminação inadequada, que ofusca os astros, provoca danos ambientais e desperdício de recursos.
O arquiteto José Canosa Miguez já tinha me alertado para o problema, não faz muito tempo. Ele critica a iluminação recentemente instalada pela prefeitura no Morro Dona Marta, em Botafogo, com "luminárias esféricas translúcidas que,embora equipadas com lâmpadas de baixo consumo, lançam para o alto metade da luz produzida".
No Brasil, ainda não há uma legislação destinada a proteger o céu. Mas na República Tcheca, que foi o primeiro país do mundo a aprovar uma lei contra a poluição luminosa, várias estrelas foram "devolvidas" às cidades. E a Nova Zelândia vem, desde 2007, reivindicando o reconhecimento como patrimônio mundial, pela UNESCO, do 'Parque das Estrelas', primeiro parque nacional celeste do mundo.
Então fiquei imaginando um parque noturno na Barra da Tijuca ou Vargem Grande, próximo ao parque olímpico...um lugar para ver as estrelas, que naquela região, desde a minha infância, sempre foram mais luminosas.
Miguez diz que a possibilidade de observarmos um céu noturno despoluído é muito remota no Rio hoje. Mas seu artigo, publicado na revista Vivercidades, pode ser um começo: http://www.vivercidades.org.br/publique_222/web/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1488&query=simple&search%5Fby%5Fauthorname=all&search%5Fby%5Ffield=tax&search%5Fby%5Fheadline=false&search%5Fby%5Fkeywords=any&search%5Fby%5Fpriority=all&search%5Fby%5Fsection=all&search%5Fby%5Fstate=all&search%5Ftext%5Foptions=all&sid=5&text=a+hora+da+terra&x=9&y=10

A enorme expectativa, no entanto, deu lugar à perplexidade geral que só vem aumentando nos últimos 15 dias, diante da decisão da prefeitura de suspender, sine die, a divulgação do resultado do concurso (na véspera da data prevista) e dos informes lacônicos do IAB que se seguiram. O ponto a que chegamos mostra, mais uma vez, um desrespeito enorme não só para com aqueles que participaram do concurso, mas também com a profissão, o IAB e a própria cidade. Afirma-se que o resultado foi definido dentro do prazo e a ata está pronta e assinada pelos membros do júri desde então. O que falta, então, para a divulgação? Será que o resultado só será conhecido depois que algum dos concorrentes entrar com um mandado de segurança contra o poder público?

Não estou sugerindo que, por ser quem é, João Gilberto esteja acima da lei. Tampouco posso acreditar que um músico como ele não tenha condições de alugar outro apartamento, ou ter um apartamento próprio. De todo modo, é claro que, felizmente, ele jamais será um desabrigado como tantos outros que vivem, ou sobrevivem, pelas ruas da cidade. A questão é que o caso expõe, de modo agudo e alarmante, a pressão imobiliária que tem forçado muitos outros Joãos a sair de casa de uma hora para outra. E faz pensar no papel que a cidade tem também para com seus habitantes mais ilustres.
Em todo caso, se eu fosse a condessa, eu dormiria todo dia sorrindo só por dar abrigo ao João Gilberto. E se eu fosse o prefeito desta cidade, eu cuidaria dele como de um bem público, e faria de tudo para que nada, nada mesmo, lhe roubasse o sono, a música e o gosto de viver aqui.