2
O Brasil constrói / No mês das Olimpíadas, mais duas publicações estrangeiras dão destaque à producão atual de arquitetura por aqui: a revista Plot, da Argentina (com foco em arquitetos do Rio), e a revista espanhola Arquitectura Viva (com uma seleção da produçao mais recente de arquitetura no Brasil, destacando na capa o projeto do Complexo Nacional de Tiro, na Vila Militar de Deodoro, do escritório mineiro BCMF).  O editorial desta última, assinado por Luis Fernández-Galiano, é particularmente agudo, por isso o reproduzo abaixo: 

"Brasil construye

Brasil construye, pero la cantidad es todavía superior a la calidad. Casi
siete décadas después de ‘Brazil Builds’, la mítica exposición del MoMA
neoyorquino que en 1943 descubrió al mundo una modernidad tropical, el
país prepara dos grandes eventos deportivos que darán testimonio de su auge
económico y, previsiblemente, también de su dinamismo arquitectónico y
cultural. Dentro de dos años, el Mundial de Fútbol se jugará en doce ciudades
brasileñas, y tanto la eficacia de la organización como la arquitectura de los
estadios procurarán transmitir a visitantes y telespectadores los logros del
país; dentro de cuatro, la celebración de los Juegos Olímpicos en Río de
Janeiro someterá a examen la capacidad de regeneración urbana de una de las
ciudades más hermosas del planeta, pero también una de las más conflictivas.
Con su apuesta brasileña, la FIFA primero y el COI después han decidido
homenajear al país, y al tiempo ponerlo a prueba.
La historia de éxito alumbrada por Fernando Henrique Cardoso, Luiz
Inácio Lula da Silva y Dilma Rousseff ha hecho de Brasil «el país de moda»,
descrito rutinariamente en los dominicales ilustrados con las palabras
‘energía’, ‘vitalidad’ y ‘optimismo’. Esos rasgos, sin duda, colorean este
momento de fulgor, pero sólo el buen gobierno ha podido poner en valor el
formidable potencial geográfico y humano de una nación que ocupa el quinto
lugar del mundo en extensión y en demografía, y que hoy es ya una de las
veinte economías más grandes del globo, y el indiscutido líder de la región
sudamericana. La solidez institucional y el acierto político de sus gobernantes
han sido al cabo los soportes robustos de un ímpetu que, manifiesto sobre
todo en el terreno cuantitativo, debería orientarse cada vez más hacia la
erosión de las desigualdades sociales, la promoción de la calidad de vida y el
fomento de la producción científica y cultural.
Es aquí donde la arquitectura y el urbanismo entran en el relato, porque el
formidable crecimiento de las ciudades y la riqueza no ha provocado aún la
explosión creativa que cabría esperar. Si seguimos dando vueltas a la ajada
oposición entre la arquitectura carioca y la paulista se debe sólo a que el
florecimiento de una nueva generación no ha dado frutos comparables a los
de sus mayores, sean los aglutinados por Lucio Costa y Niemeyer en Río,
sean los liderados por Vilanova Artigas y Mendes da Rocha en São Paulo;
apenas alguna obra de veteranos como Lelé o Marcos Acayaba, o de los más
jóvenes MK27 o BCMF, difumina con su exactitud constructiva la nostalgia
por la emoción lírica de Burle Marx o Lina Bo Bardi. Pero el conjunto de
obras aquí recogidas son a la vez un retrato pixelado del Brasil de esta hora y
una propuesta de núcleo de condensación para que en torno suyo cristalice la
masa crítica de excelencia que el país merece.

Luis Fernández-Galiano"
(Arquitectura Viva, 144)

Posto 8 / ago 12

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Fios Cortantes / Alguém me disse estes dias que encontrou minha tese de doutorado inteira na Internet ("Fios Cortantes. Projeto e Produto, Arquitetura e Design no Rio de Janeiro. 1950-70", PUC-Rio, 2008). Bom, falta o volume das imagens - fundamental para a compreensão das idéias expostas, acho eu -, mas o texto está mesmo aqui: http://pt.scribd.com/doc/90670016/Fios-Cortantes-Ana-Luiza-Souza-Nobre
(e a quem se deu este trabalho, obrigada)
6
Lucio Costa / O catálogo da exposição "A arquitetura portuguesa no traço de Lucio Costa" será lançado  no próximo sábado, dia 28, às 18 horas, no Centro Cultural da Caixa Economica (Avenida Almirante Barroso, 25), com distribuição gratuita para quem estiver lá.  E no dia 2/08, às 18 hs, haverá uma mesa redonda no mesmo local, com José Pessoa (curador da exposição, junto com Maria Elisa Costa), Jorge Hue, Renata Araújo e Eduardo Costa.


5
Concurso para jovens arquitetos / O terreno é na Barra, perto do Parque Olímpico e à beira da Lagoa de Marapendi - uma área hoje degradada, que deverá ser recuperada para se tornar sede do campo olímpico de golfe (esporte que voltará aos jogos olímpicos no Rio, depois de um século de ausência). O programa inclui a sede da Confederação Brasileira de Golfe, restaurante, áreas de apoio e serviço. 
O concurso é nacional, e desta vez destinado exclusivamente para arquitetos com até 15 anos de formação (rara oportunidade para jovens e recém-formados). As inscrições estarão abertas entre 23 de julho e 20 de agosto e o lançamento é amanhã, no IAB, junto com a cerimônia de posse da nova diretoria nacional - agora, também presidida por Sergio Magalhães.
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Cais do Valongo / Que uma cidade é feita de muitas camadas, já sabemos. Roma, afinal, está lá, com suas ruínas milenares a pelo menos uns 10 m abaixo do nível da rua por onde hoje circulam turistas, carros, ônibus, lambretas... Mas no Rio, por algum motivo, andamos meio esquecidos disso. Deve ser porque temos uma quantidade incomum de marcos naturais extraordinários (as “montanhas sem vale”, que tanto fascinaram Max Bense), e acabamos nos habituando a olhar mais pra cima que pra baixo. 

Daí minha excitação ao saber que as obras na região portuária estão trazendo à tona vestígios há muito tempo escondidos sob o asfalto, guardando secretamente traços físicos da história da cidade. O mais impressionante deles eu vi hoje: o Cais do Valongo, na esquina das ruas Barão de Teffé e Sacadura Cabral.   

O cais foi construído em 1811, pouco depois da chegada da Corte portuguesa no Brasil, com o objetivo de transferir o desembarque e comércio de escravos do Terreiro do Paço (atual Praça XV), área mais nobre da cidade. Aí desembarcaram centenas de milhares de escravos vindos da África, e também a princesa Thereza Cristina, que iria se casar com D Pedro II e tornar-se imperatriz do Brasil. Por causa dela, o cais de pedra foi reformado, alargado e embelezado (em 1843), e rebatizado com o nome pomposo de Cais da Imperatriz. Depois, com a modernização do porto, ele foi aterrado (em 1911), como toda a região ao pé do Morro da Conceição, e perdido. Até que as obras recentes revelaram uma pedra, outra, um degrau... Agora o cais é ponto-chave do chamado Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, um roteiro a ser feito a pé, que inclui a Pedra do Sal, o Cemitério dos Pretos Novos, os Jardins Suspensos do Valongo e o Largo do Depósito – e como é possível que tenhamos esquecido isso tudo?

 
Em nenhum outro lugar da cidade a brutalidade da escravidão é tão gritante e tão pública.  E ainda que nada indique, por ora, que essas pedras secas um dia mergulharam no mar (senão uma placa com o mapa atual da região), sou imediatamente tocada pela violência do sistema sócio-econômico que arrastou-as até aqui, e foi em grande parte responsável também pela evolução urbana da minha cidade.

Sei que o mar está logo ali. Mas olhando em direção a ele, o que vejo agora é a construção provisória e anódina que abriga a ultra-midiática exposição da prefeitura sobre os empreendimentos na região. E mais adiante, a avenida Rodrigues Alves, a Perimetral, e o muro de algum armazém. Preciso ao menos de uma fresta. Um fio d’água, que seja, onde eu possa mergulhar minha dor e vergonha.
3
Li ontem no jornal: o mobiliário urbano da área portuária será projetado por Norman Foster e Philip Starck.
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Raphael e Emygdio / Rodrigo Naves e Heloisa Espada afirmam que eles são artistas, e modernos. Se é assim, vou ver na exposição que abre dia 14, sábado, no Instituto Moreira Salles, com mesa-redonda com os curadores (às 17 hs). Junto, abre também uma mostra sobre a psiquiatra Nise da Silveira, que cheguei a conhecer uma vez no Engenho de Dentro, num dia que nunca me saiu da cabeça, e talvez nunca tenha existido.

Posto 7 / jul 12

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Cidade-Paisagem. E agora, Patrimônio Mundial pela Unesco.

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Lucio Costa em Portugal / Na correria em que andei, acabei perdendo a abertura, ontem, da exposição “A Arquitetura Portuguesa no Traço de Lucio Costa”, na Caixa Cultural (Avenida Almirante Barroso, 25). Mas agora vou lá. Quero rever aqueles desenhos que me emocionaram tanto quando os vi pela primeira vez nas mãos de Helena, filha de Lucio Costa, enquanto esboçávamos a Casa de Lucio Costa, há uns 10 anos atrás. Os desenhos andaram perdidos e só foram encontrados por Helena depois da morte de seu pai. São cinco pequenos blocos com mais de 300 croquis feitos pelo arquiteto em Portugal, nos anos 50, aos quais se somam agora as fotos feitas pelo arquiteto José Pessoa (professor da UFF e organizador do livro “Lucio Costa – Documentos de Trabalho” ), que, em 2011, refez, com uma câmera na mão, o percurso de Lucio Costa. A exposição fica até 5 de agosto, e tem curadoria de Maria Elisa Costa e José Pessoa.

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De Cecília Cotrim, sobre a carta de José Resende:


"bela "sustentabilidade", a do resende, aí – nesse sentido da obra que se reitera e se refaz a cada vez............"

Bom demais.
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JR / José Resende cancelou a presença hoje no Forte, por motivos pessoais.
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Cosmos, Contexto, Sustentabilidade e José Resende / Amanhã, domingo, tem José Resende no Forte de Copacabana (às 17 hs). Não sei sobre o que, exatamente, ele vai falar - o que pode sair de um evento midiático sobre sustentabilidade, e da conversa com Miguel Rio Branco? Em todo caso, vale a pena ler a carta que ele mandou pra revista "Cosmos e Contexto" (www.cosmosecontexto.org.br), publicada ontem:

"Em uma leitura rápida dos números anteriores da revista fiquei surpreso ao encontrar dois artigos relativos à manifestação plástica e a menção logo no início do artigo de Paolo Rossi, citando Thomas Kuhn, sobre a relação diversa dos artistas com o passado da arte em oposição à relação dos pesquisadores da ciência frente à história das ideias.


No segundo número há o diálogo entre Ana Freitas e Mario Novello “na tentativa de produzir uma imagem que represente e seja fiel ao conceito de espaço-tempo da física moderna”, no qual a objetividade da critica que se fez às imagens sugeridas pela artista é invejável, considerando que hoje em dia é muito raro encontrar opiniões tão incisivas nos textos que discutem a produção de arte como as que aparecem na argumentação de Mario Novello frente às obras de Ana Freitas.


Entretanto, acho que há um problema na premissa do diálogo, quando se aceita a ideia de uma imagem que represente o conceito. Ao colocar a imagem submetida ao conceito desta forma, ela fica necessariamente reduzida à condição de ilustrá-lo e, assim, incapaz de representar (ou reapresentar) o conceito. Ou seja, a imagem perde sua autonomia. Daí, a meu ver, a necessária insatisfação do crítico frente a elas.


Nada contra a ilustração como tal, nem mesmo reduzir ou rebaixar sua qualidade e pertinência, mas acredito que o importante é diferenciar uma coisa de outra. Uma coisa é ilustrar, que está na esfera da comunicação, outra coisa é a imagem valer apenas como expressão, com significado em si mesma.


Para exemplificar, fica mais fácil evocar a poesia, a literatura: qualquer texto que se proponha comunicar uma certa ideia ou mensagem pode ser avaliado por qualidades que lhe são próprias como clareza, precisão, sua capacidade de sintetizar e não dar margem à duvidas em relação ao que se quer comunicar. Uma obra literária, ao contrario, só pode ser avaliada exatamente pelas qualidades simétricas e opostas à estas, ou seja, que seu significado não se esgote, que a cada releitura novos sentidos se desdobrem, que permaneça sempre ressignificando, pois é claro que não está atendendo a finalidade alguma que não seja reiterar a si mesma.


Há uma diferença muito grande entre este diálogo e o que ocorreu no terceiro número da revista, onde as imagens das telas de Ivano Soares são intercaladas por poemas de Mario Novello. Nesses poemas, o que se expressa é uma disposição existencial que se manifesta frente ao desafio de construir um conceito. Aqui, ao invés de interpretar ou ilustrar uma coisa com a outra, tanto o texto como a imagem se apresentam como manifestações expressivas paralelas e que se assemelham.


É curioso notar, entretanto, que a atitude crítica no primeiro diálogo se permite muito mais ativa e interferente, influindo claramente no processo de transformação da própria imagem, enquanto no outro, para o diálogo com as telas se apresenta um exercício paralelo de expressão, que demonstra uma identidade, manifesta através de processos expressivos diferentes.


A diferença que eu gostaria de ressaltar diz respeito justamente à posição do espectador frente à manifestação expressiva plástica: buscar um sentido ou significado por trás da imagem para lhe dar razão de ser – o que afinal ela representa – é uma atitude muito diversa daquela de quem se põe frente à expressão tentando entender o que ela é por si mesma, como esta expressão se organiza, se estrutura e se consubstancia como coisa colocada no mundo.


Pode-se dizer que do espectador da obra de arte se espera uma disposição frente ao trabalho muito semelhante àquela de quem a produziu.


Frente a uma tela, queiramos ou não, nos reportamos a ela sempre como Arte.


De fato a obra de Picasso não relegou a de Rembrandt aos depósitos, como diz Khun. Cézanne já havia afirmado que a pintura pinta a pintura, porém frente às suas telas a quem de fato se exige mudança é daquele que as olha, pois ali se vê maçãs, pessoas, o Monte de Sainte-Victoire representados, mas, de fato, para quem quer mesmo ver, ali estão pinceladas que constroem imagens, com tonalidades, direções e sentidos definidos, que explicitam a forma com que a tela se constituiu.


Talvez Marcel Duchamp, o mais racionalista dos artistas, aliás como um bom francês não poderia deixar de ser, tenha percebido que estava dentro de um determinado sistema de produzir arte e rompeu com ele, produzindo e exercendo um outro. Sua principal referência e ferramenta foram o chiste, o trocadilho, o duplo sentido, a ambiguidade. Pode-se dizer a relatividade. Como ele diz, o relógio visto de perfil não mostra as horas.


A frase de Thomas Khun permite desdobramentos. Embora seja impróprio afirmar que em arte haja progresso, não sei se em Rembrandt, mas seguramente só é possível ver Poussin, Delacroix, Manet e o próprio Cèzanne sob o prisma que passa por Picasso e o Cubismo. E seguramente estamos mais próximos de entender todos eles e o próprio Picasso através da compreensão que Pollock teve disso tudo.


Não que a história da arte seja linear, mas o olhar nunca é ingênuo. E é até muito menos do que nos damos conta. Há uma memória visual constituída e influente que nos condiciona e dá um repertório definido, que na maioria das vezes cria um sistema vicioso, até preconceituoso de ver.


Da perspectiva de quem produz arte, que é de onde eu falo, é preciso reconhecer e diferenciar as transformações pelas quais vem passando esta produção. Processo que evidentemente já ocorreu em outras áreas na medida de sua ampliação, como, por exemplo, na atividade editorial em relação a literatura e o aparecimento dos best-sellers, na indústria fonográfica em relação a música, inclusive a música clássica, e até mesmo no cinema, que já nasceu industrial, mas que fez já do cinema de diretor coisa do passado. Atrasados e tardios nisso ficaram o teatro e as artes plásticas.


É inegável, entretanto, que todas as facilidades de comunicação, assim como as do controle sobre as informações, fizeram a produção, mas, sobretudo, o mercado de arte se ampliar e assumir o controle do que se reconhece como arte.


Lógico que essa ampliação só poderia gerar um fenômeno que é o da profissionalização,
determinando mudanças pelo que se entende como carreira profissional, aliás não só a dos artistas, mas de todos que interferem nesse processo, como, por exemplo, críticos e teóricos que ajudavam a pensar a produção e que hoje tornaram-se curadores e a manipulam.


Ou seja, até pouco tempo atrás era através da efetivação e reconhecimento de sua produção que um artista ia se tornando profissional. O artista que se integrou agora a este sistema ampliado pensa antes a sua carreira e muitas vezes a efetiva até com sucesso antes mesmo, por paradoxal que pareça, de produzir seu próprio trabalho. São inúmeros os exemplos de artistas que muito prematuramente se tornaram clássicos de si mesmos na repetição exaustiva de uma mesma ideia, que muitas vezes é a sua primeira e única. Talvez isso seja decorrência da lógica de fixar no mercado sua produção.


Não tenho sobre isso nenhum julgamento de ordem moral, pois não haveria razão nem justificativa para a produção de arte ficar isenta e incólume em relação ao sistema do valor e sua lógica de ampliação. Mas, por outro lado, o que constato é que o diálogo no meio da arte está cada vez mais pobre. O que se discute é a carreira profissional, as exposições estão cada vez mais parecidas entre si, aqui e pelo mundo afora, os comentários são mais trocas de informação do que pensamento sobre o que se produz, enfim, uma chatura. O que eu defendo é buscar outras alternativas de se relacionar com a produção de arte e é nesta medida que a revista me surpreendeu pela decisão tão afirmativa e genuína de interesse em dialogar com a expressão plástica.


Para terminar, também devo confessar outra surpresa que foi a possibilidade de partilhar conhecimentos para os quais imaginava ser necessário dominar um vocabulário de matemática, que para mim é inacessível. Sinceramente, o conceito espaço-tempo, mesmo na parca compreensão que fui capaz de formar, me traz muito mais curiosidade e motivação do que eu consigo ter com a produção que o meio da arte vem apresentando.


Obrigado,


José Resende"


- – - – -


(* José Resende é artista plástico, vive e trabalha em São Paulo.)
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Rio Cidade-Paisagem / Abriu esta semana a exposição “Rio Cidade-Paisagem”, na Biblioteca Nacional.


A mostra abre no momento em que os olhos do mundo estão voltados para o Rio de Janeiro - sede da conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável e candidata a Patrimônio da Humanidade pela Unesco, na categoria de Paisagem Cultural - visando celebrar, e ao mesmo tempo colocar em discussão uma das características que melhor definem esta cidade: a relação única que aqui se estabeleceu entre construção e natureza.

Cerca de 150 peças foram garimpadas do valioso acervo da Biblioteca Nacional: desenhos, gravuras, aquarelas, fotos, documentos, partituras, livros e periódicos de períodos diversos, compondo um mosaico que cobre os quase 500 anos do Rio.

Dentre os destaques, desenhos de Thomas Ender, fotos de Alair Gomes, registros do reflorestamento da Floresta da Tijuca, e duas propostas de arrasamento do Morro do Castelo, ainda do século XIX. Uma seção de filmes também permite ver, dentre outras coisas, um raro registro da Praia do Leblon e do Vidigal na década de 1930, as grandes ressacas anteriores aos aterros que se sucederam à beira-mar, culminando no Aterro/Parque do Flamengo, e a implosão recente do Hospital Universitário, na Ilha do Fundão.

A estrutura da mostra é dada por seis pontos focais, selecionados em função da sua importância para a definição da paisagem carioca, entendida do ponto de vista dos aspectos materiais e imateriais que a compõem: Baía de Guanabara, Floresta da Tijuca, Avenida Central - Morro do Castelo, Aterros, Subúrbios e Orla.

Longe de ser exaustiva, a mostra recupera e ilumina, assim, pontos e momentos significativos da história da construção/destruição da paisagem carioca desde a fundação da cidade, no séc XVI.

A curadoria é assinada por Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, Sergio Besserman Vianna e eu. E a exposição pode ser visitada até 05 de agosto, no Espaço Eliseu Visconti da Biblioteca Nacional (com entrada pela rua México). De 3ª a 6ª, das 10h às 18h; sábados, domingos e feriados das 12h às 17h.

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Rio +20 / O que eu sei da programação aberta ao público nos andaimes montados no Forte de Copacabana, a partir desta semana: dia 17, às 17hrs, tem José Resende e Miguel Rio Branco, e mais:  dia 12 - Sergio Besserman 17hrs; dia 14 - Luiz Alberto Oliveira 19hrs; dia 15 - Pedro Duarte 20hrs; dia18 - Luiz Eduardo Soares 15hrs; dia 20 - José Carlos Avelar e Erick Rocha. E shows (com distribuição de senha às 15hrs): dia 11 - Bateria da Portela 18hrs; dia 12 - Maria Bethania 19hrs; dia 13 - Caetano Veloso 19hrs; dia 14 - Ivor Lancelotti 16hrs; dia 15 - Leo Tomassini e Dany Roland 17hrs; dia 16 - Os Ritmistas 16hrs; dia 17 - Astronautas - teatro musical 18hrs; dia18 - Chelpa Ferro16hrs; dia 20 - Jorge Mautner e Rubinho Jacobina 16hrs; dia 22 - Bloco Boitatá 18hrs. E ainda Luis Inácio Lula da Silva e Regina Casé, dia 21. É isso. E chove.
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E aqui, a programação do Green Nation Fest, que acontece na Quinta da Boa Vista: www.greennationfest.com.br
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PUC-Rio+20 / As discussões relacionadas à Rio+20 começam hoje na PUC. Aqui, a programação dos eventos que acontecem no campus da universidade a partir desta semana: www.puc-rio.br/puc-rio20.

Posto 6 / jun 12

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Postes / Lota de Macedo Soares lutou para dotar o Parque do Flamengo de uma luz digna do projeto urbanístico de Affonso Eduardo Reidy e do paisagismo de Burle Marx. A luz enluarada que causou tanta polêmica ao ser implantada, na década de 1960, é obra do arquiteto americano Richard Kelly – autor de projetos de iluminação de obras como a Glass House, de Phillip Johnson, o Seagram Building, de Mies van der Rohe, e o Lincoln Center, de Wallace Harrison, em Nova York. Kelly foi indicado pelo próprio Phillip Johnson, a quem Reidy escreveu pedindo uma sugestão.


O que Caetano Veloso viu como um “frio palmeiral de concreto”, e Lucio Costa como “lanças num quadro de batalha de Paolo Ucello”, é, portanto, um projeto altamente sofisticado e inovador de luz e mobiliário urbano, visando garantir um nível de iluminância adequado a um parque público à beira-mar com 6 km de extensão, e ao mesmo tempo interferir minimante na paisagem urbana então em construção, com postes extremamente delgados e elegantes, da maior altura possível, no menor número possível. Isto é, 112 postes com 45 metros, no lugar dos 1800 postes convencionais previstos inicialmente.


É claro que isso envolveu uma solução dispendiosa, já que os postes desenhados por Kelly tiveram que ser fabricados especialmente, as lâmpadas de vapor de mercúrio foram importadas dos Estados Unidos, e até a fundação das torres exigiu um projeto especial de estrutura, num longo processo em que até o escritório do engenheiro Emilio Baumgart (um dos maiores calculistas do Brasil) foi ouvido.


O que foi feito dos postes está aí, na foto colhida do Google pelo arquiteto Rogério Cardeman: como tantos outros na cidade, os postes de Kelly são hoje considerados meros suportes para instalação de uma porção de caixinhas (câmeras, visores, caixas e medidores de luz) que vão sendo fixadas ali, de acordo com as necessidades que também vão surgindo. Isso vale para a Lagoa e Copacabana também. E supostamente, é até um avanço em relação às gambiarras que dominam os postes da orla de Ipanema-Leblon, por exemplo – e isso, só pra ficar em algumas das áreas mais valorizadas da cidade, do ponto de vista ambiental e paisagístico. Mas quem vai ligar pra poste, numa cidade tão bonita quanto o Rio?

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Porto Olímpico / E esta, agora: "A juíza Maria Teresa Pontes Gazineu, da 2ª Vara da Fazenda Pública da Capital, acolheu os pedidos do Ministério Público estadual e anulou o resultado do concurso público “Porto Olímpico” relativamente ao primeiro e ao segundo colocados. O pedido liminar feito pelo MP deve-se ao fato de João Pedro Backheuser e Flavio Oliveira Ferreira, respectivamente primeiro e segundo colocados na licitação, serem membros do Conselho Deliberativo do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ) que foi a entidade responsável pela organização e realização da licitação."  (do site do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro: http://portaltj.tjrj.jus.br/web/guest/home/-/noticias/visualizar/76403)
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Rio +20 / Entre 11 e 15 de junho, a PUC hospeda o "Fórum de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável", como parte dos eventos preparatórios para a Rio+20: http://www.icsu.org/rio20/science-and-technology-forum/about
As sessões principais serão fechadas - e exibidas em telões espalhados pelo campus - mas os eventos paralelos serão abertos ao público em geral.
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Forte de Copacabana / Quem não vai querer entrar numa dessas caixas suspensas sobre o mar? Pra garantir acesso à estrutura projetada por Carla Juaçaba em colaboração com Bia Lessa, em todo caso, é bom se inscrever logo no Fórum de Empreendedorismo Social, que acontece lá durante a Rio+20, com várias atividades abertas ao público: http://www.empreendedorismosocial.org.br/index.php?lang=br

Os organizadores estão prevendo um público diário de 10.000 pessoas e avisam que não haverá estacionamento no local. Mas o metrô da Praça Gal.Osório fica bem próximo, e uma caminhada pela praia, saindo do Posto 12, ou do Leme, também não é má idéia.
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Rio + 20 / Quem passa pela praia de Copacabana vê surgir a obra mais recente da arquiteta Carla Juaçaba: uma imensa estrutura metálica, em construção no Forte de Copacabana, destinada a abrigar reuniões e exposições durante a Rio+20. O projeto, assinado com a cenógrafa Bia Lessa, se insere na linhagem da arquitetura visionária encabeçada por Cedric Price (Fun Palace, em Londres), Yona Friedman (Paris Espacial) e pelo grupo Archigram, nos anos 60.


Trata-se basicamente de uma estrutura treliçada, leve e portante, que hospeda caixas/cápsulas intercambiáveis e igualmente leves - de painéis de madeira, no caso -, suspensas do chão. Todos os elementos construtivos são pré-fabricados, de pequenas dimensões, e foram articulados para serem montados, desmontados, transportados e remontados, mobilizando estratégias de reaproveitamento. Mas aqui a estrutura - toda feita de andaimes - se concretiza e atualiza, à escala da paisagem carioca: 170x 40 m, com 25 m de altura. O resultado é de tirar o fôlego: o cruzamento do viés mais ficcional da arquitetura pop com o horizonte azul de Copacabana, e o Pão de Açúcar ao fundo. É algo que vai durar pouco ali - não mais que um mês - mas que já figura com destaque dentro do quadro que também vai se construindo da arquitetura contemporânea no Rio de Janeiro.

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Legado / Shohei Shigematsu (OMA, NY) abriu sua palestra na PUC, sexta passada, com a imagem de uma carta enviada por “some angry people from Rio” a seu sócio, Rem Koolhaas, no ano passado. Custei um pouco a perceber que se tratava do protesto que assinei com um pequeno grupo de alunos e professores, após sua última passagem pela cidade.


Segundo Shohei, a carta foi recebida com surpresa, mas foi também o motivo pelo qual ele decidiu apresentar-se na PUC agora, em sua primeira passagem por uma escola de arquitetura no Rio. Depois da palestra, entre (muitas) caipirinhas no Baixo Gávea, discutimos se o legado dos grandes eventos para os quais a cidade se prepara pode não ser um projeto ou uma edificação, propriamente, mas uma mudança de pensamento e de postura no meio da arquitetura local, a começar pelas escolas de arquitetura.


Parece óbvio, mas é bom não esquecer o quanto o papel das escolas, neste momento, é fundamental. E se muitos projetos que temos visto para o Rio não tem a qualidade que gostaríamos que tivessem, e talvez não sejam capazes de provocar uma mudança efetiva na cultura arquitetônica local, quem sabe a presença cada vez mais freqüente de tantos arquitetos estrangeiros, em palestras e workshops com estudantes, possa produzir o legado pelo qual devemos – e podemos, de fato - trabalhar neste momento.

A palestra de Shohei, aliás, foi brilhante - e abriu um abismo em relação à maioria das apresentações de arquitetos estrangeiros que temos visto por aqui. Em vez de imagens espetaculares e de um discurso pronto e acabado em defesa de uma arquitetura da qual nunca se vêem os problemas, o que vimos foram muitos mapas, diagramas e maquetes toscas e sem acabamento refinado, que falam muito mais de um exercício aberto - pensamento-obra -, que de uma obra concluída. Nenhuma frase de efeito, nenhuma instrução. Muito mais problemas e desafios que soluções, enfim, e um delicioso tom irônico e provocativo em tudo - culminante no Instituto Marina Abramovic, em Nova York, projetado para abrigar suas delirantes performances de longa duração.

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Concursos / Depois de um ano e meio, saiu o primeiro lote de contratações do  Morar Carioca, concurso público realizado pelo IAB-RJ em 2010, em parceria com a prefeitura do Rio, visando a urbanização de mais de 200 favelas até 2020.  A assinatura dos contratos entre a Secretaria Municipal de Habitação e dez escritórios de arquitetura foi feita dia 27 passado, e permite que pelo menos uma parte dos projetos seja iniciada.

Os escritórios que assinaram contratos são: Insite Arquitetos; Hector Vigliecca e Associados; Agrar Consultoria e Estudos Técnicos; Humberto Kzure-Cerquera; Arqhos Consultoria e Projetos; Flávio Ferreira Arquitetura e Urbanismo; Corcovado Arquitetura e Urbanismo; Napp – Claudia Brandão de Serpa, Atelier Metropolitano e LVA Estrutura e Desenvolvimento Empreendimentos Urbanos. Somados ao escritório Heitor Derbli Arquitetos Associados, que já tinha sido contratado, são 11 dos 40 selecionados no concurso.

Por coincidência, a assinatura dos contratos ocorreu no mesmo dia do anúncio da ação movida pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro para anulação do concurso do Porto Olímpico ( http://concursosdeprojeto.org/2012/04/28/ministerio-publico-pede-anulacao-do-concurso-do-porto-olimpico-no-rio/ ), à qual o IAB respondeu esta semana com um comunicado que pode ser lido aqui: http://www.iabrj.org.br/nota-publica-do-iab-rj-sobre-o-concurso-porto-olimpico
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Agenda / Duas palestras movimentam o campus da PUC esta semana, abrindo as comemorações pelos 10 anos do Curso de Arquitetura: amanhã, terça, tem o arquiteto e designer italiano Piero Missoni (às 10:30, no auditório Padre Anchieta), e sexta, o arquiteto Shohei Shigematsu (sócio de Rem Koolhaas e diretor do OMA-Office for Metropolitan Architecture em Nova York), às 19:00, no auditório do RDC.




Posto 05 /12


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Compartilhe Felicidade / Fui, com chuva e tudo. E foi bem mais fácil do que eu pensava. Bastou pegar um trem na Central, descer quatro estações depois e pegar o teleférico ali mesmo. Não precisei comprar outro bilhete, nem abrir o guarda-chuva. O que veio em seguida é que estou até agora digerindo. Um vôo rasante de cerca de 40 minutos sobre o Complexo do Alemão, num teleférico vermelho suspenso por cabos de aço, com a Baía de Guanabara e o Porto Maravilha ao fundo.

Os carrinhos vão e vem, sem parar. Dá uma certa tensão entrar e sair, mas a velocidade é tal que não há grande dificuldade. A não ser para uma senhora com compras, ou uma mãe com carrinho de bebê, penso. Mas também não sei, porque todos no meu carrinho eram turistas, com câmeras em punho, como eu.


Lembrei logo da Disney: lá também pulávamos dentro de um carrinho que nos levava num giro por uma realidade fantástica (e muitas vezes ameaçadora), da qual não raro me senti uma mera espectadora - e enquanto durou o percurso, confesso, também refém. Até as dimensões são mais ou menos as mesmas; aqui o carrinho tem 6 lugares. Parece um nada diante do fluxo de massa que imagino diante daquele mar de casas? A julgar pelo que vi, não: no meu carrinho, éramos 4 na ida e 3 na volta, e muitos outros estavam vazios (por volta do meio-dia de uma segunda-feira).

Mas que bobagem, o Alemão não tem nada a ver com a Disney. Nem mesmo com todos aqueles corações colados aos carrinhos, e todas aquelas mensagens otimistas (“compartilhe felicidade”, “aqui a alegria é contagiante”). E o quiosque da Kibon que me espera na estação mais alta - onde o que posso fazer senão tomar um picolé?

Na volta, penso de novo na senhora que sobe com as compras, na mãe com carrinho de bebê...Ok, o teleférico não é pra elas, é pra mim. E pra quem trabalha, não? No centro da cidade, imagino. Porque como o percurso é em linha – começa e termina em Bonsucesso -, imagino que num ou noutro sentido possa ser tão ou mais fácil subir e descer de van, de moto, ou mesmo a pé (da Fazendinha para o Engenhão, por exemplo, ou para Jacarepaguá).

Vou descendo e contando as estações, conforme elas vão despontando sobre os pontos mais altos da região e contracenando com a igrejinha da Penha, que antes dominava esta paisagem. Todas seguem um mesmo padrão, com variações de cores fortes: um bloco compacto, de alvenaria, encimado por uma cobertura tensionada branca - num esquema curiosamente análogo ao do New York City Center, shopping que trouxe a Estátua da Liberdade para a Barra da Tijuca. Mas não é isso o que me incomoda. Talvez a limpeza excessiva, que contrasta com as montanhas de lixo que vejo por todo lado lá de cima. Talvez a ausência completa dos expedientes de sobrevivência que lotam os trens da Central (onde foram parar os ambulantes ruidosos, com suas promoções incríveis?). Talvez os vasos de planta, cuidadosamente dispostos nos patamares das escadas largas e vazias. Não chega a ser o desvario do Elevador do Cantagalo, em Ipanema, mas tudo aqui soa meio artificial. Até a bela égua que pula na minha frente, de repente, em contraste com os vira-latas que vagam em torno da estação Palmeiras.

Talvez meu maior problema seja com a simetria e o sentido de composição que rege a arquitetura das estações. Num contexto como este, marcado por uma dinâmica tão acelerada, a imagem de equilíbrio que a estação promove pode ter sido deliberadamente buscada para contrastar com o caos do entorno, oferecendo-lhe alguma estruturação. Mas o arranjo absolutamente simétrico da fachada mostra, ao contrário, um discutível alheamento ao contexto e uma forte resistência à instabilidade e ao movimento contínuo que o define. Obediência a eixos e frontalidade, num campo tão altamente tensionado, embaralhado e dominado pelo improviso? Espaços fechados, rigidamente delimitados e compartimentados, que dificultam qualquer adaptação ou uso imprevisto, agora ou no futuro? A questão, mais uma vez, está na dificuldade de lidar com situações urbanas entrópicas e modos de ocupação que escapam a qualquer formalização, no sentido tradicional, engendrando continuamente configurações fluidas, complexas e mutantes.

Evidentemente, o custo de instalação e operação de todo o sistema não deve ser baixo - e pode-se discutir até que ponto se justifica, em função do número de pessoas efetivamente transportadas e da dependência de investimentos permanentes em manutenção, dificilmente sustentáveis a longo prazo. Mesmo assim, entendo que o teleférico é uma tentativa válida de encontrar solução para os graves problemas de acessibilidade das favelas cariocas, buscar a aproximação entre diferentes formas de ocupação da cidade e aumentar a presença do poder público em áreas críticas. Mas enquanto miro minha lente para baixo, num voyeurismo quase infantil, não tenho como não pensar também no efeito inverso: não há ninguém sobre as lajes, essas lajes que parecem ser justamente o espaço de maior liberdade do Alemão, por oferecer - até aqui, pelo menos - um território protegido de privacidade e sociabilidade de que suas casas e ruas não dispõem. Mas pode ser só porque chove, claro.

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Calatrava / O arquiteto espanhol Santiago Calatrava, autor do projeto do Museu do Amanhã - em construção no Pier Mauá - faz palestra sexta, dia 4 de maio, às 17 hs, no Parque Lage. A palestra é gratuita mas é necessário inscrever-se com antecedência pelo telefone 3221 7551 ou pelo email eventos@frm.org.br.
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Salve, Jorge
Salve, Delacroix



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Eu nem vi o livro ainda, mas gostei do título e da abordagem: "O RIO QUE O RIO NÃO VÊ – os símbolos e seus significados na arquitetura civil do centro da cidade do Rio de Janeiro" (ed. Aori) é um estudo iconográfico de ornamentos simbólicos presentes nas fachadas do centro carioca, produzido por Luiz Eugênio Teixeira Leite (fotos), e Nelson Pôrto Ribeiro (texto). O livro foi lançado esta semana na Livraria da Travessa. E pode ser uma boa companhia pro Dia de São Jorge, santo guerreiro que luta contra todos os dragões para proteger esta cidade.






(aqui, o blog do Nelson, que é arquiteto e professor da Universidade Federal do Espírito Santo: http://www.nelsonporto.blogspot.com.br/)
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Mais Hadid e Schumaker, por Roberto Segre:
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/12.055/4312


(e Zaha parte hoje, depois de 2 semanas no Rio, e um piquenique na Casa das Canoas).
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Bernardes e Robertos / Sergio Bernardes é tema do programa Coleções, que será exibido nesta quinta, dia 05, às 21:30, no canal SESC TV (com reprise sexta e sábado às 15h30, domingo às 13:30 e segunda às 9:30).

E no domingo de Páscoa deve sair matéria sobre os Roberto no jornal O Globo.










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Hadid e Schumaker no Fundão / Sinceramente, não me lembro de ter visto nada assim antes. Quando estudei na FAU-UFRJ, lá pelos anos 80, o sábado costumava ser um dia ainda mais morto do que os outros, em que a gente evitava a todo custo sequer passar por lá. Mas desta vez, uns 40 minutos antes da hora marcada a fila já atravessava o pilotis, o jardim e ia até a rua.

Calculo que deviam ter umas 2000 pessoas, entre alunos (de várias escolas) e professores (de várias escolas, áreas e gerações), esperando por Zaha Hadid e Patrick Schumaker ontem de manhã. E isso em pleno sábado de sol, na Ilha do Fundão. Um emocionante e inesquecível sinal de recuperação da escola onde estudei, e com ela, da própria arquitetura no Rio de Janeiro.

No telão instalado no hall, as formas maleáveis da “arquitetura paramétrica” de Hadid e Schumaker contrastavam com as linhas rigorosas da arquitetura de Jorge Machado Moreira, justamente num de seus edifícios mais emblemáticos (que finalmente e felizmente, começa também a ser recuperado).

Schumaker montou um breve esquema histórico para definir o “Parametricismo” como o “estilo do século XXI”, sucessor do Modernismo e do que ele chamou de “episódios intermediários” do Pós-modernismo e do Deconstrutivismo. Num percurso retilíneo, sempre acompanhado de imagens vistosas, e em boa parte já bem conhecidas, traçou um panorama que partiu de primitivas colônias africanas e passou à cidade medieval (ilustrada com Arles e Siena), ao Renascimento (o “Big Bang da Arquitetura”, ilustrado com Palmanova) e ao Barroco (Versalhes e o Palácio Carignano, de Guarini), e por fim ao Modernismo (o edifício da Bauhaus, de Gropius, e a Ville Radieuse, de Le Corbusier), o Pós-Modernismo (Venturi e Charles Jencks) e o Deconstrutivismo (Tschumi), e daí ao Parametricismo – ou seja, o seu próprio trabalho, em conjunto com Hadid.

Com um discurso enfático e assertivo, apoiado por sua partner (que se sentou ao seu lado e preferiu falar menos, mas mostrou-se igualmente disponível e bem-humorada), o confiante Schumaker defendeu, assim, sua tese central: a de que a arquitetura precisa reconstruir sua especificidade e poética própria, desligando-se de outras disciplinas (listadas num peculiar quadro comparativo que procurou relacionar a arquitetura à arte, ciência, medicina, educação, política e economia). E para isso, os arquitetos precisam “criar um impacto, como o Modernismo fez”. Mas sem repetir seus princípios (resumidos na tríade “separação, especialização e repetição”), e sim buscando outros: a saber, a variação, a diferenciação e a correlação, potencializados pelo uso das ferramentas oferecidas pelas novas tecnologias (modelagem e simulação digital, basicamente).

Isto é o que Schumaker denomina de "Parametricismo": uma “teoria unificada”, supostamente capaz de resumir e superar todas as outras teorias contemporâneas, e basicamente definido em termos de superfícies não planares e formas maleáveis, em vez de formas ideais e sólidos geométricos; e de sistemas interconectados e correlacionados, em vez de unidades autônomas e autosuficientes.

Foram indicadas rapidamente algumas referências, como os sistemas da natureza e as tensoestruturas de Frei Otto. E embora os edifícios ministeriais de Niemeyer em Brasília tenham surgido como exemplo da repetição e monotonia que se quer deixar para trás, o mesmo Niemeyer foi valorizado, num momento seguinte, por sua maneira muito peculiar de “manipular o solo”. Junto com Artigas, por seus “espaços profundos” e suas grandes coberturas.

Depois de duas horas, a dupla Schumaker+Hadid deixou no ar um otimismo contagiante, sobretudo para os mais jovens. Mas não avançou muito além do esquematismo, e assim não chegamos nem perto de uma reflexão sobre as complexas relações entre as redes digitais e a cidade contemporânea, nem ficamos sabendo minimamente como aquelas deliciosas formas se constroem, com que materiais e por que meios. E se a vertiginosa cascata de imagens com que Schumaker encerrou sua fala mostrou que a sua pesquisa tem dado muitos frutos notáveis (do qual o MAXXI, em Roma, é um dos exemplos mais recentes, e certamente um dos mais polêmicos), também indicou o risco de que essa mesma pesquisa venha a se esgotar numa especulação formal leviana, passível de servir indistintamente a um museu ou a uma sandália.
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+ Robertos / O jornalista Rogerio Daflon está fazendo uma matéria sobre os Irmãos Roberto, que sai domingo no jornal O Globo. Será que agora sai também pelo menos um livro sobre eles?
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Parametrismo ? / Zaha Hadid faz uma apresentação aberta ao público no sábado, dia 31, ao lado de seu partner, Patrik Schumacher, no salão azul da FAU-UFRJ, às 11 da manhã. Schumacher tem se dedicado a explorar os novos sistemas paramétricos e ferramentas digitais surgidos nos últimos anos, e tem diversos livros e artigos publicados sobre o assunto, reunidos aqui: http://www.patrikschumacher.com/
















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Blow-up Robin Hood / Talvez tenha sido o nome, antes de tudo, o que me tocou. Robin Hood, o lendário herói fora-da-lei, que roubava dos ricos para dar aos pobres. Usava uma cômica roupa verde, manejava o arco e flecha como ninguém e morava clandestinamente, rodeado de amigos, numa floresta. Numa floresta ou num jardim? Jardins de Robin Hood, que nome para um conjunto habitacional. Este ainda tem uma rua no ar e um monte no coração, onde crianças brincam sem medo. Fica em algum lugar de Londres e foi projetado pelos Smithson, Alison e Peter, nos anos 60, não muito depois do vazio que protagoniza a estranha cena de abertura de Blow-Up.

Blow-Up Robin Hood. Quero dizer que estou mortificada com a sua condenação, e não me conformo porque não terei sequer como visitá-lo a tempo. Bem que tentei juntar minha voz distante a firmas de prestígio como as de Zaha Hadid, Norman Foster e Richard Rogers. Mas amanhã, no lugar do Robin Hood Gardens, haverá uma derrota que nenhum de nós pôde evitar. Só eu o verei ainda daqui, jardim de concreto meio decadente, habitado por um herói meio ultrapassado e um casal meio fora-da-lei de arquitetos. While my eyes go looking for flying saucers in the sky.





(a primeira foto é de Sandra Lousada, e a segunda, daqui: http://www.sublimephotography.co.uk/eastendphotos/isleofdogs/pages/robin.htm)

Posto 12 / mar 12

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Robertos / Como é que eu vou deixar de anunciar o filme sobre os Irmãos Roberto que passa semana que vem na mostra competitiva do festival "É tudo verdade"? A realização é da Tríplice Produções, que já realizou um documentário sobre o Pedregulho, e a direção é de Ivana Mendes e Tiago Arakilian. No Rio, o filme passa dias 24, sáb, às 21 h, e 25 de março, domingo, às 13 h, no Espaço Itaú, na Praia de Botafogo. E em São Paulo, dias 26, seg, às 21 h, e 27, terça, às 15 h, no Cinesesc, na Rua Augusta. Só vi o trailer, por enquanto, mas estou torcendo.







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Que venha 2012.
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Clarice / Não gastei mais que dez reais numa coletânea recém-lançada de crônicas de Clarice Lispector sobre o Rio, que encontrei estes dias na feira de livros do Leblon. Não são os melhores textos da autora, nem as melhores crônicas sobre a cidade. Talvez a seleção também não seja a mais adequada. Mas ganhei este:



"Eu vi uma coisa. Coisa mesmo. Eram dez horas da noite na Praça Tiradentes e o táxi corria. Então eu vi uma rua que nunca mais vou esquecer. Não vou descrevê-la: ela é minha. Só posso dizer que estava vazia e eram dez horas da noite. Nada mais. Fui porém germinada."


(Clarice Lispector. "Do Rio de Janeiro e seus personagens", Rocco, 2011)




Bom Natal.
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Marina / Está n'O Globo de hoje: Eike Batista desistiu do projeto de Índio da Costa para a Marina da Glória. Disse que o projeto - ao qual se referiu como "um devaneio" e "uma vergonha" - "já está na lata do lixo", e que vai buscar outro, porque o prazo para início das obras - 2012 - está mantido. Sobre o polêmico estacionamento subterrâneo, com 1500 vagas, disse que "nunca" o construiria: "Nós queremos um projeto minimalista, e não algo como essa proposta, que é uma vergonha". Ora, mas como assim? "Nós" quem? Não custa lembrar que o projeto em questão foi escolhido num concurso fechado e disputado por arquitetos renomados do mundo todo, selecionados e convidados pela própria EBX, empresa de Eike Batista, num processo envolto no mais alto sigilo, cujo resultado até hoje não foi apresentado publicamente. É difícil acreditar que um empresário como Eike Batista, que tem demonstrado tanto interesse pela cidade, e certamente dispõe de consultores do mais alto gabarito nos mais variados setores em que atua, não conte com o apoio de assessores minimamente qualificados na área de arquitetura. Assim como é difícil acreditar que ele desconhecesse o projeto escolhido por sua própria empresa há mais de um ano. Talvez ele tenha mudado de idéia depois da pressão pública que começou a se armar nos últimos tempos em defesa do Parque do Flamengo. Em todo caso, desqualificar publicamente o projeto dessa maneira revela um enorme desrespeito não só pelo vencedor como por todos os arquitetos envolvidos no concurso, e mais, pela própria arquitetura.



PS: Não vou comentar os projetos premiados pelo IAB-RJ este ano. Mas não deixo de recomendar que eles sejam vistos na sede do IAB, ou aqui: http://www.piniweb.com.br/construcao/arquitetura/iab-rj-elege-melhores-projetos-do-rio-de-janeiro-em-cinco-243192-1.asp

Posto 12 / dez 11







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Pompidou / Saindo da biblioteca da Esdi - o principal centro de irradiação do design ulmiano no Brasil - bato os olhos no edifício vizinho: um Pompidou às avessas, num miolo de quadra na Lapa. E ninguém precisa acreditar, mas tenho em mãos o "Inteligência Brasileira", de Max Bense.